Sociólogo aponta erro estrutural: sem urbanização, o Estado nunca retomará as favelas

O que significa o STF condenar Bolsonaro e generais pelo ataque à democracia

STF mantém condenação de Bolsonaro e seis réus

Pedro do Coutto

A decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, que rejeitou os recursos do ex-presidente Jair Bolsonaro e de ex-ministros e generais envolvidos na tentativa de golpe de Estado, marca um divisor de águas na história política recente do Brasil.

O placar de 4 a 0 não sela apenas um processo jurídico, mas consolida um marco institucional, que reafirma os limites constitucionais diante de um projeto de ruptura articulado a partir do próprio Estado.

RESULTADO DAS URNAS – Desde os ataques de 8 de janeiro de 2023, o STF vinha ampliando sua atuação para reconstruir o que ocorreu: não se tratou de ato isolado ou tumulto espontâneo, mas de uma tentativa coordenada de subverter o resultado eleitoral e impor um novo regime político, apoiado no discurso de que as Forças Armadas poderiam intervir para “corrigir” o processo democrático.

A condenação alcança nomes de altíssimo escalão, como Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira, Anderson Torres, Almir Garnier Santos e Alexandre Ramagem. A mensagem institucional é inequívoca: não haverá relativização histórica ou eufemismo jurídico quando o pacto constitucional é atacado diretamente.

Democracias, como já analisado por organismos como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, sobrevivem apenas quando têm capacidade de responder com clareza a tentativas de ruptura — especialmente quando essas tentativas vêm de dentro de suas próprias estruturas de poder.

PONTO SENSÍVEL – Com os recursos praticamente esgotados, o centro de gravidade do processo se desloca para um ponto sensível: o cumprimento das penas. A presença de generais e ex-ministros em unidades militares poderia criar um ambiente de tensão interna, enquanto manter prisões domiciliares para todos seria interpretado como privilégio indevido. A possibilidade de envio de parte dos condenados para a Penitenciária da Papuda, entretanto, abre um dilema mais profundo: como as Forças Armadas irão elaborar publicamente o fato de que quadros de sua cúpula violaram o juramento constitucional?

O impacto simbólico dessa etapa pode ser maior do que o próprio julgamento, porque obriga a instituição a decidir entre a autopreservação corporativa e o compromisso democrático que afirma defender.

Entre os condenados, o caso de Mauro Cid é particularmente revelador. Condenado a pena menor, ele abriu uma trilha documental e testemunhal que detalhou a engrenagem do golpe no nível operacional. Seu papel demonstra algo essencial: a democracia não se defende apenas com posicionamentos políticos, mas com investigação rigorosa, provas verificáveis e devido processo legal. Não foi narrativa contra narrativa — foi fato contra intento de fraude histórica.

BASE MOBILIZADA – A condenação, porém, não encerra a disputa política. O bolsonarismo ainda possui base mobilizada, discurso afetivo e canais de comunicação que mantêm viva a hipótese de deslegitimação das instituições. A democracia brasileira, nesse sentido, segue em teste contínuo. Mas o julgamento estabeleceu um limite: a ruptura não será normalizada.

O próximo passo será decisivo. Se o país conseguir atravessar a fase de cumprimento das penas sem humilhações institucionais, sem bravatas de revanche e sem concessões que reescrevam o passado, poderá finalmente consolidar algo que lhe faltou desde 1988: a certeza de que a Constituição não é apenas uma referência moral, mas uma fronteira inegociável. O julgamento foi o momento da sentença. Agora começa o período mais difícil — o da maturidade democrática.

Nova York em disputa: Zohran Mamdani e a reconfiguração do poder urbano

Eleição de Mamdani reabre o futuro político dos EUA

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

Enquanto o trumpismo transforma o imigrante em ameaça, Nova York se afirma como obra coletiva das diásporas. A eleição de Zohran Mamdani reabre o futuro político dos Estados Unidos a partir do território concreto da vida urbana.

Nova York não enviou apenas um recado — lançou um aviso. A vitória de Mamdani marca uma virada histórica: não se trata de administrar a cidade tal como ela existe, mas de disputar o que ela pode vir a ser. A capital simbólica do capitalismo global transforma-se, agora, no laboratório da sua própria contestação. O resultado expressa o esgotamento do consenso neoliberal e recoloca no centro a pergunta que o establishment tentou enterrar: quem tem direito à cidade?

COMANDO POLÍTICO – Pela primeira vez, um socialista declarado — negro, filho de imigrantes ugandeses de origem indiana, formado na luta contra despejos e defensor de políticas universais — assume o comando político da cidade que, durante décadas, sintetizou desigualdade, especulação imobiliária e finanças desreguladas. Não se trata de uma simples alternância de poder: é uma ruptura na gramática política dos Estados Unidos.

Durante quase meio século, Nova York funcionou como vitrine do dogma que equiparou desenvolvimento urbano à acumulação privada. Mamdani desfaz essa naturalização. Recoloca a habitação, o transporte, o espaço público e o controle democrático do solo urbano como fundamentos — e não como concessões marginais. Desestabiliza a lógica que transformou o território em ativo financeiro e a vida urbana em sobrevivência permanente.

Contra o pragmatismo defensivo que se tornou reflexo do Partido Democrata, emerge a possibilidade de uma cidade orientada para a vida comum — e não para a rentabilidade de poucos. Não é apenas um programa de gestão: é uma reconfiguração da própria ideia de cidadania urbana.

ROSTO E RUA – A genealogia desse momento tem rosto e tem rua. A virada municipalista foi construída por movimentos de base — sindicatos de inquilinos, campanhas contra despejos, organizações de trabalhadores essenciais — mas também por figuras como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, que legitimaram a justiça econômica não como horizonte moral, mas como proposta governável. Mamdani não surge como exceção: ele é produto de um ciclo consistente de educação política e mobilização social.

A batalha decisiva, porém, será travada onde o poder real se concentra: fora dos parlamentos. Em Nova York, grande parte da governança urbana opera na sombra — fundos imobiliários, fundos de pensões, incorporadoras e consultorias de zoning moldam o cotidiano por mecanismos extraeleitorais. O desafio é transformar programa em norma, norma em política, política em estrutura — resistindo à litigância estratégica, à sabotagem regulatória e às manipulações de mercado.

PRECEDENTES – Há precedentes internacionais. Barcelona, Berlim, Viena e, em menor escala, Lisboa, experimentaram regulamentações antiespeculativas, expansão da habitação pública e mobilização cívica. Os resultados mostram o essencial: reverter a financeirização é possível, mas a contraofensiva econômica é persistente e tecnicamente sofisticada. A transformação exige política — mas também paciência, perícia jurídica e astúcia institucional.

No plano nacional, o impacto é explosivo. Em um país onde Donald Trump consolidou poder transformando o imigrante em ameaça, Mamdani afirma a cidade como obra coletiva das comunidades que a constroem. Para o trumpismo, a presença estrangeira é risco; para Nova York, é fonte de vitalidade. Não é apenas divergência ideológica — é disputa sobre quem pertence à América do século XXI.

DISPUTA MATERIAL – Nada, porém, está garantido. Fora das metrópoles, a retórica anti-imigração continua ancorada na desindustrialização, na precariedade e no ressentimento. Mamdani representa uma alternativa — não uma hegemonia. A disputa será material: no aluguel, no transporte que funciona ou falha, no salário que permite ou não viver. É na economia do cotidiano que o futuro político dos Estados Unidos será decidido.

Dentro do Partido Democrata, o desconforto é evidente. Uma geração jovem, multirracial e urbana exige redistribuição e direitos sociais; a elite partidária teme que a palavra “socialismo” feche portas nos subúrbios e no Meio-Oeste. Mamdani pode inaugurar um novo realinhamento — ou ser isolado como excentricidade municipal. A chave será enfrentar o lobby imobiliário — o verdadeiro governo invisível da cidade.

O laboratório está aberto. E, se der certo, a velha ordem não voltará intacta.

Acompanhem Gilmar contra Fux no julgamento que pode salvar Bolsonaro

🔥 The new details of the fight at the Supreme Court: Fux humiliated Gilmar! 🔥 - YouTube

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Carlos Newton

Ninguém sabe se teremos um “Duelo de Titãs” (John Sturges) ou um “Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (Glauber Rocha), mas é certo que haverá um duelo sensacional no Supremo, quando for a julgamento o novo recurso a ser apresentado pela defesa de Jair Bolsonaro à Segunda Turma, para anular o julgamento anterior que acaba de ser encerrado pela Primeira Turma.

O que ninguém esperava era o espetacular lance do ministro Luiz Fux, que na Primeira Turma deu aquele voto de 429 páginas inocentando Bolsonaro da acusação, sob argumento de que ele desistiu do golpe e viajou para Miami antes de Lula assumir.

ESQUEMA GENIAL – Somente Fux pode dizer se foi tudo bolado por ele ou se é uma estranha coincidência, mas a verdade é que o esquema para inocentar Bolsonaro só existe devido à surpreendente aposentadoria de Luís Roberto Barroso, que está sob ameaça de perder a fortuna que investiu nos EUA, caso Trump o inclua na Lei Magnitsky.

Com a estratégica saída de Barroso, o ministro Fux pôde ocupar a vaga dele na Segunda Turma e vai dar maioria a Bolsonaro, unindo-se aos votos de Nunes Marques e André Mendonça.

Com isso, ficam em minoria Gilmar Mendes e Dias Toffoli), com a responsabilidade de evitar a anulação do acórdão condenando Bolsonaro e outros seis incriminados.  

SUSPENSE TOTAL – No Supremo, o suspense é de matar o Hitchcock, diria o genial compositor Miguel Gustavo. O ministro Gilmar está uma pilha contra Fux e também contra Barroso, e passou a distribuir informações  contra a Tribuna da Internet, garantindo que existe  “jurisprudência” para impedir a manobra de Fux, o que não corresponde à verdade, conforme explicaremos no próximo artigo, nesta segunda-feira, dia 10.

Ninguém sabe como acabará esse imbróglio. No julgamento da Segunda Turma, na forma da lei, da doutrina e dos regulamentos, deveria ser vitoriosa a tese processual de Fux.

Porém, nada impede que Gilmar e o novo presidente Fachin inventem uma solução antijurídica para manter Bolsonaro preso, como fizeram em 2019, para soltar ilegalmente Lula da Silva, e depois em 2021, para possibilitar a candidatura dele, mais ilegalmente ainda.

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P.S.
 – Gilmar Mendes e Luiz Fux se tornaram inimigos declarados, somente se falam nas sessões quando é inevitável. A partir de agora os julgamentos da Segunda Turma passarão a ser embates entre eles.  Tudo indica que, na briga entre os dois, quem sairá perdendo é a Justiça, que já está andando torta feito papagaio. (C.N.)

Bancada cristã ainda não foi criada, mas já tinha sala com placa na Câmara

Deputado alega que “erro do pessoal de serviço”

Bela Megale
O Globo

A bancada cristã da Câmara dos Deputados ainda não foi criada, mas chegou a ter uma sala própria na Casa, com placa de identificação (foto). O espaço onde ela foi instalada ficava no corredor da liderança do governo e já foi ocupado pelo PSDB.

O deputado federal Gilberto Nascimento (PSD-SP), presidente da Frente Parlamentar Evangélica e um dos articuladores da criação da bancada cristã disse que “houve uma falha do pessoal” e que a placa foi retirada.

“FALHA DO PESSOAL” – “Ali vai ficar a sala da Frente Parlamentar Evangélica. Não temos sala da bancada cristã, houve uma falha do pessoal. A ideia é que, quando for criada, vamos arrumar um espaço, se necessário. Mas hoje achamos que não há necessidade e vamos ficar com uma sala da Frente Parlamentar Evangélica e outra da Frente Parlamentar Católica”, disse Nascimento.

Ao ser questionado sobre de quem foi o erro, o deputado afirmou que “talvez tenha sido do pessoal de serviço” da Câmara. A iniciativa chegou a ser criticada por algumas lideranças religiosas que se colocam contra a criação da bancada cristã, como o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ).

“A imagem de ter uma sala da bancada cristã antes da aprovação é um escárnio. É a prova de que está tudo combinado. É o retrato do privilégio e da falta de noção sobre respeito à diversidade. Eu votei contra a urgência e votarei contra a criação da bancada no mérito”, disse. Parlamentares fizeram uma comparação com a Comissão dos Povos Originários, que chegou a demorar quase seis meses para ter uma sala.

OUTRO DESTINO – O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), negou que tenha fornecido a sala para a instalação da bancada cristã e disse que o espaço foi destinado à Frente Parlamentar Evangélica.

“Não tem sala para bancada cristã, até porque, ela não está criada. O que ocorreu foi que mudei a Frente Parlamentar Evangélica para uma sala maior e dei a sala que era dela para a Frente Parlamentar Católica”, disse Motta.

ESPAÇO ANTIGO – O presidente da Casa afirmou que não teve conhecimento da instalação de uma placa da bancada cristã no local e disse que, se isso ocorreu, foi um “erro”. Perguntado porque as Frentes Católica e Evangélica terão salas, já que não é praxe que frentes parlamentares tenham esses espaços no Congresso, Motta disse que isso “depende do nível de organização de cada frente” e que o colegiado evangélico já tinha um espaço antes dele ser o presidente da Câmara.

No mês passado, os deputados aprovaram a tramitação em regime de urgência do projeto que cria a bancada cristã. A proposta foi apresentada por integrantes das frentes evangélica e católica e vai instituir uma nova liderança, com direito a voto no colégio de líderes. É o colégio de líderes que define a pauta de votações da Casa e conduz as negociações políticas do plenário. O mérito referente à criação da bancada, no entanto, ainda será analisado.

Sabatinas ‘de verdade’: OAB-SP quer influenciar indicações ao STF

Maior parte da sociedade está fora da polarização acentuada, diz pesquisa

A falsa guerra ao “narcoterrorismo” e o truque da direita para pedir tutela externa

Missão, o mais novo partido, declara guerra ao PL e tenta liderar direita

Renan mira o eleitorado jovem e insatisfeito com o governo

Bruno Ribeiro
Folha

Com o registro aprovado pelo TSE na última terça-feira (4), o Missão, partido ligado ao MBL, pretende lançar candidatura à Presidência, mira governos estaduais e rejeita alianças com o bolsonarismo e com o Novo, ampliando a disputa partidária pelo eleitor brasileiro de direita.

“[Os partidos da direita] estão sendo oposição ao governo Lula lutando pela anistia [a Bolsonaro]”, disse à Folha Renan Santos, futuro presidente da sigla, ao comentar a aprovação do novo partido. Ele critica o que avalia como falta de propostas no campo ideológico. “Não somos a mesma direita que os caras.”

IMPEACHMENT – O MBL já havia rompido com Bolsonaro ainda durante seu mandato. Nas eleições para a presidência da Câmara em 2021, na pandemia de Covid-19, o deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) lançou candidatura com a pauta única de impeachment do então presidente. Embates entre membros do MBL e bolsonaristas são frequentes nas redes.

Oficializado, Renan mantém críticas ao grupo e ao partido Novo. Ele diz que o Missão mira o público jovem descontente com o governo e identifica no eleitorado liberal-conservador espaço para crescer. “O Novo aposta nas ‘tias do Zap’ do Bolsonaro. A gente aposta no millennial pistola e na geração Z”, afirma.

“[Os bolsonaristas] estão sendo oposição ao governo Lula falando de anistia. Nós estamos falando de desfavelização e classificação de facções como terroristas [proposta defendida por Donald Trump]. O Nikolas [Ferreira] tem uma posição sobre desfavelização? Agora, depois de pautarmos o assunto”, diz o dirigente, citando o deputado do PL de Minas Gerais.

FORÇA NAS REDES – O termo “desfavelização” ganhou força nas redes com vídeos feitos com inteligência artificial que mostram favelas reurbanizadas. No Instagram, Renan associa o tema à “falta de autoridade do Estado para reprimir invasões”. A Folha procurou Nikolas e o Novo, mas não obteve resposta.

Renan afirma que o Missão buscará candidatos alinhados à agenda do grupo e que não pretende atrair nomes conhecidos de outras siglas. “Para receber alguém do centro ou da direita, o futuro candidato teria de se comprometer com nossa agenda e se retratar”, afirma.

Nas redes sociais e no YouTube, alguns integrantes do grupo têm destaque na defesa da agenda do MBL, como os influenciadores Paulo Cruz e Ricardo Almeida, e há expectativa que sejam alguns dos nomes a serem lançados. Nas páginas do grupo, o MBL declara ter 1.100 colaboradores.

DIREITA DIVIDIDA – Para o professor André Borges Carvalho, da UnB, a onda anticorrupção e a Lava Jato, que impulsionaram o MBL a partir de 2014, perderam força. Ele vê uma direita dividida entre bolsonaristas e um campo conservador pró-mercado.

“Lula, quando foi preso, conseguiu manter o controle do PT e tinha uma estrutura partidária com ele. O Bolsonaro não comanda o PL, nunca comandou”. Contudo, ele avalia que uma candidatura de direita viável ainda precisa buscar os votos do eleitor do ex-presidente.

Renan rejeita a avaliação de que a iniciativa pode favorecer a esquerda ao dividir a direita. “Se um cara está pensando isso, deve pensar que eu não deveria ter feito oposição a Bolsonaro no passado”, diz. “Vox populi não é vox Dei [a voz do povo não é a voz de Deus].” Ele também descarta acordos regionais com bolsonaristas. “Acho o Tarcísio um puxa-saco do Bolsonaro”, afirma.

FINANCIAMENTO – A coleta das 589 mil assinaturas foi financiada, segundo o grupo, por meio da venda de uma coleção de livros com propostas do partido. Renan preferiu não informar quanto arrecadou, mas estimou que o custo para cada assinatura enviada ao TSE ficou entre R$ 2 e R$ 3.

O MBL surgiu há 11 anos, no rescaldo dos protestos de 2013, e elegeu representantes por outros partidos, como o União Brasil. O movimento foi abalado em 2022 após a divulgação de um áudio misógino do então deputado estadual Arthur do Val, o Mamãe Falei, que terminou cassado.

Deputado bolsonarista vira alvo da própria base ao criticar operação no Rio

Otoni disse que a operação foi “teatro espetacular”

Rayanderson Guerra
Estadão

Uma foto ao lado de deputados de esquerda no complexo de favelas da Penha e o posicionamento crítico à operação mais letal da história do País, com 121 mortos, foram suficientes para que o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), pastor evangélico, fosse tachado de “pastor comunista”. Desde que se posicionou contra o resultado da megaoperação na Zona Norte do Rio, o parlamentar passou a ser alvo de perseguição por militantes alinhados à direita.

Pastor da igreja Ministério Missão de Vida e apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na gestão do clã da zona oeste na Presidência, Otoni passou a ser perseguido nas redes sociais após dizer na Câmara dos Deputados que a operação na Penha e no Alemão foi “teatro espetacular” e, segundo ele, demonstrar empatia com as famílias dos mortos nos complexos de favelas.

LIVRE PARA DIALOGAR – “Eu sempre separo o que é direita e o que é a direita bolsonarista. Está ficando muito claro para as pessoas das comunidades que a direita não tem empatia ou preocupação nenhuma com quem vive a realidade da comunidade. É o que está parecendo. Eu sou deputado federal, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos, e agora não posso mais aparecer ao lado de deputados de esquerda? Sou livre para dialogar”, diz.

De acordo com o parlamentar, “a direita está jogando as favelas no colo da esquerda” ao não demonstrar empatia e preocupação com os moradores de comunidades. Otoni defende o papel da igreja evangélica na “contenção da barbárie nas favelas”.

EMPATIA – “Podem me atacar, não há nenhum problema. O problema é que está ficando claro que, na verdade, a direita não tem empatia e preocupação com quem está na favela. É o que está parecendo. Se não quiserem agir por empatia ou por sinceridade, que haja inteligência. Hoje,70% da nossa cidade é tomada pelas comunidades. O bairro já virou comunidade. Assim a direita joga parte da comunidade no colo da esquerda”, afirma o deputado.

Otoni destaca que a igreja evangélica atua onde o Estado não chega. E afirma que, não fosse a religião, teríamos “barbáries muito maiores”.

“A igreja evangélica é o grande muro de contenção da barbárie. Dentro da comunidade, se não houvesse a igreja evangélica com a capilaridade, empatia, palavra humanizada, que ela tem, teríamos hoje barbáries dentro da comunidade muito maiores do que nós temos hoje. É ela que leva o social, que divide o pão dentro da comunidade”, diz Otoni.

“Acorda patativa, vem cantar, relembra as madrugadas que lá vão…”

Quem foi Vicente Celestino, voz famosa da música brasileira | VEJA SÃO PAULO

Celestino, o maior galã de sua época

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor (tenor), ator e compositor carioca Antônio Vicente Felipe Celestino (1894-1968) lançou um estilo caracterizado pelo romantismo exacerbado, comovendo e arrebatando um grande público durante a primeira metade do século XX, através do teatro, do rádio, de discos e do cinema nacional.

Esta característica do romantismo embeleza a letra de “Patativa”, valsa de Vicente Celestino gravada pelo próprio, em 1937, pela RCA Victor. “Patativa” é o nome de uma espécie de pássaro existente no Brasil, que tem um canto muito bonito e variado. A partir do sucesso da valsa de Celestino, o termo “patativa” passou a ser atribuído às pessoas de bela voz.

PATATIVA
Vicente Celestino

Acorda patativa, vem cantar
Relembra as madrugadas que lá vão
E faz a tua janela o meu altar
Escuta a minha eterna oração

Eu vivo inutilmente a procurar
Alguém que compreenda o meu amor
E vejo que é destino o meu sofrer
É padecer, não encontrar
Quem compreenda o trovador

Eu tenho n’alma um vendaval sem fim
E uma esperança que hás de ter por mim
O mesmo afeto que juravas ter
Para que acabe este meu sofrer
Eu sei que juras cruelmente em vão
Eu sei que preso tens o coração
Eu sei que vives tristemente a ocultar
Que a outro amas, sem querer amar

Mulher, o teu capricho vencerá
E um dia tua loucura findará
A Deus, a Deus, minha alma entregarei
Se de outro fores, juro morrerei
Amar, que sonho lindo, encantador
Mais lindo por quem leal nos tem amor
E tu tens desprezado sem razão
A mim que choro e busco em vão
O teu ingrato coração.

Prisão de Bolsonaro pode virar importante bandeira para a direita

Prisão na Papuda poderia vitimizar o capitão reformado

Bela Megale
O Globo

Depois de usar a operação policial no Rio e a pauta da segurança pública para confrontar o governo Lula, bolsonaristas já estão de olho no próximo episódio que pode ter impacto na popularidade do presidente.

A avaliação de correligionários do PL é que a prisão em regime fechado de Jair Bolsonaro teria potencial de abalar a popularidade do governo Lula em apenas um cenário: se ele for enviado para um presídio convencional, como a Papuda, no Distrito Federal. Isso porque os bolsonaristas acreditam que a prisão numa cadeia poderia vitimizar o capitão reformado, principalmente por seu estado de saúde.

OFÍCIO – O governo do Distrito Federal enviou para Moraes um ofício com o pedido para que Jair Bolsonaro seja submetido à uma avaliação médica para atestar sua condição de ir para um presídio de Brasília e seu entorno.

Se Bolsonaro for mantido em prisão domiciliar ou ir para uma unidade do Exército ou da Polícia Federal, membros de seu partido não creem que haverá mobilização da base popular capaz de respingar em Lula.

Eles acreditam que a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de punir Bolsonaro gradativamente — primeiro com a proibição de usar redes sociais e, depois, com a decretação da prisão domiciliar — contribuiu para que, após o trânsito em julgado da trama golpista, não haja manifestações com grande público nas ruas quando o ex-presidente passar a cumprir a pena.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGA jornalista nada comenta sobre o julgamento dos recursos (embargos infringentes), a ser feito na Segunda Turma, onde Bolsonaro tem maioria, com os votos de Luiz Fux, Nunes Marques e André Mendonça. Será um julgamento eletrizante, que pode “inocentar” Bolsonaro. (C.N.)

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O próprio Bolsonaro não entende o esquema de Luiz Fux

Carlos Newton

O julgamento dos recursos de Jair Bolsonaro e dos demais acusados de envolvimento no golpe de Estado, concluído nesta sexta-feira, é considerado  uma mera formalidade, porque os embargos de declaração não têm poder modificativo, servem apenas para esclarecer alguma dúvida, geralmente são usados apenas para ganhar tempo, ao atrasar a publicação do acordão final para cumprimento da pena.

No seu caso, após a publicação da nova decisão, Bolsonaro e outros réus têm mais 15 dias para apresentar um recurso que realmente pode modificar a condenação – os embargos infringentes, que são apresentados quando não há unanimidade na decisão, como ocorreu com o ex-ministro José Dirceu no caso do Mensalão.

VERSÃO DE GILMAR – Por encomenda, a imprensa está divulgando apenas uma versão de bastidores, anunciando que seriam necessários dois votos conflitantes para possibilitar embargos infringentes. Alguns ministros, liderados por Gilmar Mendes,  estão informando a imprensa (mas sempre em off) que assim os recursos infringentes de Bolsonaro serão recusados de cara, devido ao entendimento de 2018, num julgamento de Paulo Maluf.

Na época,  o plenário considerou que esse tipo de embargo somente deve ser aceito se houver dois votos pela absolvição no julgamento da Turma, o que não foi o caso de Bolsonaro, que só teve um voto, de Luiz Fux.

Bem, em 2018 este foi o entendimento do plenário ao analisar o recurso infringente de Maluf, condenado por lavagem de dinheiro, corrupção e remessas ilegais ao exterior, quando prefeito de São Paulo. Mas na vida tudo muda…

ORÁCULO DE DELFOS – Os jornalistas engolem a versão de Gilmar Mendes,  como se ele fosse o Oráculo de Delfos, mas a realidade é um pouco diferente.

Se Gilmar Mendes, como presidente da Segunda Turma, recusar o embargo infringente de Bolsonaro, os três ministros dissidentes (Fux, Nunes e Mendonça) têm direito de recorrer e derrubar a decisão monocrática de Gilmar, que vai se desembeiçar em cena aberta.

Portanto, apesar do precedente de Maluf, o recurso terá de ser aceito pela Segunda Turma, por estar sendo apoiado pela maioria. Portanto, será analisado, irá à votação e deve inocentar Bolsonaro e outros integrantes do núcleo central do golpe, em placar de 3 a 2 (Fux, Marques e Mendonça, absolvendo, com Gilmar e Toffoli condenando).

EM JULGAMENTO –  Na presidência dos trabalhos, Gilmar vai enlouquecer de raiva, junto com Toffolli e os outros ministros petistas. É claro que ele vai citar à exaustão a decisão sobre Maluf e recorrer ao plenário, para que o processo seja julgado novamente, algo que jamais aconteceu na História do Supremo, e imaginem a confusão que isso vai dar, com pedidos de vista e outras chicanas. Isso porque, do julgamento em uma das Turmas, o recurso é sempre para a outra Turma e não para o plenário.

Nessa guerra de extermínio, é claro que Bolsonaro poderá acabar perdendo novamente, mas tudo isso vai demorar um tempo enorme, e  ele pode ser solto e beneficiado pela decisão da Segunda Turma, ficar viajando de lá para cá, fazendo campanha eleitoral para os candidatos de sua preferência.

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P.S.Enquanto estiver beneficiado pelo julgamento da Segunda Turma, Bolsonaro estará se defendendo também em outro importante recurso, contra a decisão do TSE que o tornou inelegível. Sabem quem é o relator? Chama-se Luiz Fux, que está consultando os astros para encontrar uma maneira de inocentar Bolsonaro. Comprem muita pipoca. (C.N.)


P.S. 2 –
Aproveitamos a oportunidade para agradecer ao grande advogado carioca João Amaury Belém, que nos enviou na íntegra o embargo de declaração já apresentado ao STF pela defesa de Bolsonaro. (C.N.).

Isenção do Imposto de Renda era promessa que Lula só cumpriu agora

Faixa de isenção: o imposto de renda e a ironia da vida real | Jornal de  Brasília

Charge do Baggi (Jornal de Brasília)

Vicente Limongi Netto

O Senado Federal mostrou, novamente, que trabalha com sentimento de brasilidade, colocando sempre em primeiro lugar o interesse público, ao aprovar por unanimidade a lei que isenta de Imposto de Renda de quem ganha até 5 mil reais mensais.

Relator da matéria na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e em plenário, o senador alagoano do MDB, Renan Calheiros, quatro vezes presidente do senado e do congresso, trabalhou com invulgar espírito público, isenção e patriotismo.

Calheiros frisou que a medida vai beneficiar milhões de trabalhadores.  Em Alagoas, salientou, 95% da população será beneficiada. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre também foi importante para a aprovação da matéria, facilitando, acelerando e garantindo a tramitação da proposta.

O tema foi promessa de campanha presidencial do candidato Lula da Silva. A isenção começa a vigorar a partir de janeiro de 2026.

PEGANDO CARONA – Já estava demorando. O falastrão Cesar Tralha começou as botar mangas de fora. Insiste em pegar carona em todas as matérias. Entra de pingente. Precisa travar a língua.

Discreta, como deve ser, Renata Vasconcelos já percebeu o Tralha fora do tom. Fica constrangida. Segura as pontas.  O formato do Jornal Nacional não é para observações candentes e conversas fiadas. William Bonner já faz falta.

Com Tralha a audiência do Jornal Nacional está sendo tragada pelos rios da Amazôna.  

GASTRONOMIA – O chamado Sistema S – SENAI (indústria), SENAC (comércio), SEBRAE (micros e pequenas empresas) e SESC (serviço social do comércio) – é completo: cuida de esporte, cultura, turismo, lazer e gastronomia.

O Senac do Distrito Federal vai abrir curso técnico de pizzaiolo com especialização na pizza napolitana. A primeira turma começa em março de 2026. O Senac decidiu investir em capacitação profissional para atender o mercado que cresce muito em Brasília.

São mil bares e restaurantes do ramo de pizzas, empregando mais de 90 mil trabalhadores. Brasília é o terceiro polo gastronômico do país.

Direita avança, ameaça o governo e põe favoritismo de Lula em xeque

Charge desta sexta-feira, 30 de maio de 2025.

               Charge reproduzida do Arquivo Google

Eliane Cantanhêde
Estadão

Após as 121 mortes na operação policial do Rio, acusada de chacina pela esquerda, aplaudida pela direita e apoiada pela sociedade, segundo as pesquisas, a oposição se realinhou e ganhou novo ânimo e a bandeira da insegurança para superar a dependência de Jair Bolsonaro e enfrentar o favoritismo de Lula para 2026. O ambiente político, já tão instável, sofreu mais um solavanco.

Lula, que vinha deslizando na pista eleitoral praticamente como candidato único, deve se preparar para fortes obstáculos no Congresso, onde não se fala mais de anistia ou dosimetria para Bolsonaro, mas a pauta saiu da economia, prioritária para o governo, e desabou na segurança, solo fértil para a direita.

FIM DA FESTA – Tudo caminhava para um fim de ano festivo para Lula, mas pode terminar 2025 com a derrota acachapante da PEC da Segurança no Congresso e entrar o ano eleitoral enfrentando a CPI das organizações criminosas, comandada pela oposição e focada em martelar que a esquerda “defende bandido”, é “contra a polícia” e “conivente com o tráfico”. E esquecendo que foram os Bolsonaro que deram a maior comenda da Alerj para um miliciano preso, sanguinário e depois morto pela polícia.

Qual um Dom Quixote, o ministro Ricardo Lewandowski usa a PEC como sua lança desde o início da sua gestão na Justiça, mas seus moinhos não são de vento, são concretos, ou de concreto, começam na Casa Civil, estendem-se pelos estados e assentam-se no Congresso — contra a PEC.

AÇÃO CONJUNTA – Segundo o ministro, o ponto central é dar maior cobertura legal para a atuação federal contra o crime organizado e garantir o compartilhamento de informações e o esforço conjunto de União, Estados e municípios.

Não é essa, porém, a percepção dos governadores de oposição nem do próprio relator da PEC a Câmara, deputado Mendonça Filho (UB-PE).

Para ele, a proposta concentra o comando da segurança pública em Brasília e precisa de “mudanças profundas”. Com essa posição do relator, uma base precária, o Centrão dando as cartas, a direita e boa parte da sociedade querendo sangue, a PEC tende a virar do avesso. Do outro lado, o governo parece tonto, sem saber o que dizer, como reagir.

 

VITÓRIA DO CRIME – Na CPI, que vai correr em paralelo, o que menos interessa é que a escalada espantosa da violência é uma derrota de décadas, da direita e da esquerda e de governos, uns atrás dos outros.

Os únicos vitoriosos são o PCC, o CV e seus filhotes. A verdade não importa. CPIs sempre miram no governo de plantão, principalmente se ele está em vantagem para a eleição seguinte.

Presidente do Senado e “amigão” de Lula, Davi Alcolumbre foi rápido no gatilho e deu o start da CPI, que deverá Flávio Bolsonaro, Sérgio Moro, Magno Malta e até Marcos Do Val, o esquisitão que se diz da SWAT, conta histórias mirabolantes e está de licença.

CONSÓRCIO DA PAZ? – Os governadores que aplaudiram Cláudio Castro e a centena de mortes no Rio criaram um consórcio que pode ser tudo, menos “da paz”, e serão decisivos para os rumos da PEC, da CPI e do tabuleiro de 2026, com a direita se livrando de Bolsonaro e ganhando o próprio rumo.

E o Governo de Lula? Bem, desta vez está às voltas com um dilema: como compatibilizar o discurso histórico de Lula e do PT com a posição majoritária do eleitorado na prioritária e explosiva área da segurança pública?

Moraes autoriza general acusado de planejar atentado contra Lula a fazer o Enem

Fernandes está preso provisoriamente em uma unidade militar

Márcio Falcão
Gustavo Garcia
G1

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu  a um pedido da defesa do general da reserva Mário Fernandes e autorizou a saída do militar da unidade em que está preso para realizar as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nos dias 9 e 16 de novembro.

De acordo com as investigações, o militar do Exército elaborou, em novembro de 2022, logo após as eleições presidenciais, um plano para matar Lula, Geraldo Alckmin e Moraes, que à época presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O planejamento faria parte de trama para dar um golpe de Estado.

ESCOLTA – Conforme a decisão de Moraes, Mário Fernandes poderá sair do Comando Militar do Planalto, onde está preso provisoriamente, e se deslocar, nos dias de prova, para a Universidade de Brasília (UnB), para realizar o Enem. O deslocamento será feito com escolta policial e os agentes deverão agir de forma “discreta” e “sem ostensividade no uso de armas”. Após a realização dos testes, o militar deverá voltar à unidade militar em que está custodiado.

No pedido encaminhado a Alexandre de Moraes, a defesa de Mário Fernandes afirmou que o militar tem interesse em fazer o Enem com o objetivo de “progressão educacional e profissional” também como possibilidade de diminuição de uma eventual pena, caso seja condenado pelo STF.

NÚCLEO 2 – Mário Fernandes é réu do núcleo 2 da trama golpista, ao lado de outras cinco pessoas. O julgamento desse grupo está previsto para começar no dia 9 de dezembro.

“O estudo, mesmo que de forma autodidata, como é o caso da preparação para o Enem, é um fator de ressocialização e deve ser prestigiado. A aprovação no exame autoriza a remição de pena, independentemente de o custodiado já ter concluído o ensino médio anteriormente”, afirmam os advogados do general.