
Charge do J. Bosco (oliberal.com)
Eliane Cantanhêde
Estadão
A desistência de Ratinho Jr. tem significados fortes e consequências claras: Gilberto Kassab desaba do pedestal de gênio da política, as opções do tal “centro” definham e o cenário de polarização se consolida. Flávio Bolsonaro conquistou uma vitória relevante e o presidente Lula é quem tem mais a lamentar.
A frente articulada por Kassab, liderada pelo PSD e engrossada por partidos do Centrão, reunia três ou quatro candidatos à Presidência, mas Tarcísio de Freitas fugiu da raia, Ratinho Jr. recolheu-se à sua insignificância, Eduardo Leite parece sempre um peixe fora d´água.
“CENTRO” FLOPOU – Sobra Ronaldo Caiado, que é um bom quadro da direita, tem ótima avaliação no seu estado e uma base sólida no agro, mas perdeu o cavalo encilhado há tempos e, além de não projetar o futuro, é de Goiás, pequeno demais para alavancar uma candidatura presidencial. O “centro” flopou em 2026.
A eleição vai afunilando para mais uma disputa sangrenta entre os extremos, cada um com um terço do eleitorado e disputando ferozmente (ou seria docemente?) o restante um terço de “independentes”, ou “de centro”.
Flávio, assim, fez uma boa jogada ao lançar o senador Sérgio Moro ao governo do Paraná. Moro tornou-se um político periférico, mas continua forte entre os paranaenses e Ratinho Jr. não quis assumir o risco de perder a liderança no Estado.
NOME PRÓPRIO – Os partidos do Centrão tentam, ou tentavam, um nome próprio porque não morrem de amores por Jair Bolsonaro e pelo 01 do clã, Flávio, mas têm uma resistência visceral a Lula e ao PT, dos quais só se aproximam por conveniência e diante de uma vitória iminente – o que, neste momento, não parece uma boa aposta. É hora de parar e observar.
Do ponto de vista político, portanto, Flávio Bolsonaro tem mais a comemorar do que Lula com mais uma renúncia no campo, digamos, “alternativo”. Do ponto de vista eleitoral, porém, há muitas ponderações a serem feitas e a dinâmica de convencimento e atração é bem diferente.
Uma coisa é aliança entre partidos e políticos, outra é encantar o eleitor. Em 2018, Geraldo Alckmin carregou o Centrão e mais um pouco (PSDB, PTB, PP, PR, DEM, SD, PPS, PRB e PSD) e, assim, reuniu o maior tempo de televisão e o maior número de palanques, mas quem chegou ao segundo turno foram Bolsonaro e Fernando Haddad.
“MENOS PIOR” – Hoje, o eleitor realmente de centro, boa parte com viés tucano, soma 30% dos votos e quer distância tanto de Bolsonaro quanto de Lula, mas vai ser assediado por ambos na campanha e decidir com os fatos que estão por vir ou na base do “menos pior”.
Já foi assim em 2018, pró Bolsonaro, e em 2022, a favor de Lula, mas as condições de hoje são ainda mais complexas e Flávio foi recebido com desdém, mas rapidamente assimilado, e Lula saiu do céu para o inferno, de 2025 para 2026, mas continua firme e com chances reais.
Como lembra o craque Antônio Lavareda, “a avaliação atual de Lula é baixa, mas ainda é melhor do que a avaliação retrospectiva de Bolsonaro”, o que significa, memória de um versus de outro e de governo versus governo, reforçando que o sobrenome é o maior trunfo, mas também o maior obstáculo de Flávio. Com o pai na Papudinha ou em prisão domiciliar, não faz diferença.
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