Simone Tebet e o desafio paulista: cálculo eleitoral, limites legais e a estratégia de Lula

Palanque em SP poderá levar ministra a deixar MDB

Pedro do Coutto

A possível candidatura de Simone Tebet nas eleições deste ano volta a movimentar o tabuleiro político nacional e revela, mais uma vez, como o governo Lula opera em múltiplas frentes para ampliar sua base de sustentação política.

Ministra do Planejamento, Tebet tornou-se uma das figuras mais relevantes do primeiro escalão, não apenas pelo cargo que ocupa, mas pela trajetória recente: uma liderança que saiu do campo do centro para se integrar, de forma ativa, à coalizão que sustenta o atual governo.

A hipótese de uma candidatura — seja ao governo de São Paulo, seja ao Senado — não surge como um gesto individual, mas como parte de uma engrenagem maior. O Palácio do Planalto busca, com evidente pragmatismo, fortalecer seu palanque no maior colégio eleitoral do país. São mais de 33 milhões de eleitores, um território historicamente hostil ao lulismo, mas decisivo para qualquer projeto de poder nacional.

DIÁLOGO – Nesse contexto, Simone Tebet aparece como um nome capaz de dialogar para além da base tradicional da esquerda, alcançando setores moderados, eleitores de centro e até parcelas do eleitorado conservador menos radicalizado.

Não se trata de improviso. Desde a campanha de 2022, Tebet demonstrou disposição para o enfrentamento político. No primeiro turno, destacou-se pelo discurso firme, pelo domínio dos temas econômicos e pela capacidade de se posicionar com clareza em debates públicos.

No segundo turno, sua adesão à campanha de Lula foi decisiva para ampliar o arco de alianças e conferir ao então candidato petista uma imagem mais plural. Esse capital político não se perdeu. Pelo contrário: foi incorporado ao governo e, agora, pode ser novamente mobilizado no terreno eleitoral.

ESTRATÉGIA – A ideia de lançá-la candidata em São Paulo atende a uma necessidade estratégica do Planalto: contrabalançar a força do atual governador Tarcísio de Freitas, que se consolidou como principal liderança da direita institucional no país. Mesmo que a vitória eleitoral não seja o cenário mais provável, uma candidatura competitiva pode cumprir outro papel fundamental — reduzir a margem de Tarcísio, tensionar sua base e, sobretudo, construir um palanque robusto para Lula em uma eventual campanha de reeleição.

Há, no entanto, limites objetivos. A legislação eleitoral impõe a exigência de domicílio eleitoral de, no mínimo, um ano antes do pleito. Esse ponto não é detalhe técnico: ele condiciona toda a estratégia. A mudança de domicílio para São Paulo, além de politicamente delicada, esbarra no calendário. O tempo corre contra a ministra, o que torna a candidatura ao governo paulista juridicamente improvável, senão inviável.

A alternativa do Senado por São Paulo também enfrenta obstáculos semelhantes. Além da exigência legal, há um fator político incontornável: Simone Tebet não possui, no estado, uma base eleitoral orgânica capaz de “puxar votos” em uma disputa majoritária tão competitiva. Diferentemente de Mato Grosso do Sul, onde construiu sua carreira política, São Paulo exige enraizamento, capilaridade e alianças locais já consolidadas — ativos que não se constroem em poucos meses.

SAÍDA MAIS SEGURA – Esse cenário recoloca, com mais força, a hipótese de uma candidatura ao Senado por Mato Grosso do Sul, seu domicílio eleitoral de origem. Trata-se de uma saída mais segura do ponto de vista jurídico e político. Ao mesmo tempo, permitiria ao governo manter Tebet como figura central na campanha nacional, sem abrir mão de um mandato legislativo estratégico em um Congresso ainda marcado por forte presença conservadora.

Há também uma consequência partidária relevante. Qualquer candidatura implicaria a saída de Simone Tebet do MDB, partido que, em São Paulo, mantém alinhamento com o atual governador. Esse rompimento não é trivial. Ele simboliza, mais uma vez, a dificuldade do MDB em se posicionar de forma coesa no cenário nacional, dividido entre o pragmatismo regional e a participação no governo federal.

COALIZÃO – No fundo, o debate sobre o futuro eleitoral de Simone Tebet revela algo maior do que o destino individual de uma ministra. Ele expõe a lógica do presidencialismo de coalizão em sua versão contemporânea: alianças móveis, cálculos eleitorais refinados e a permanente tentativa de ampliar fronteiras políticas em um país profundamente polarizado. Tebet é, hoje, menos uma candidata em potencial e mais uma peça-chave de um xadrez que Lula conhece bem — e joga com paciência.

Independentemente do desfecho, uma coisa é certa: Simone Tebet deixou de ser apenas uma liderança regional para se tornar um ativo nacional. Seu próximo movimento não será apenas pessoal. Será, sobretudo, um sinal claro de como o governo pretende disputar poder, narrativa e território nos próximos anos.

A largada antecipada de 2026 e o xadrez das desincompatibilizações

Ilustração Thiago Lucas (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

A política brasileira já vive, na prática, o calendário de 2026. Ainda que a eleição esteja distante no papel, os movimentos de bastidores se intensificam, revelando ambições, testes de lealdade e disputas silenciosas por espaço. Reportagem de O Globo mostra que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, atua para se manter na corrida presidencial, disposto, se necessário, a renunciar ao cargo no início de abril do próximo ano para cumprir a regra da desincompatibilização, exigida seis meses antes do pleito de outubro.

A exigência prevista na legislação eleitoral — consolidada na Lei Complementar nº 64/1990 e reiterada pela jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral — impõe uma escolha clara: ou o poder executivo local, ou a aposta nacional. Ao aceitar esse risco, Tarcísio sinaliza ao mercado político que não quer ser apenas uma alternativa de ocasião, mas um nome disposto a pagar o preço institucional da candidatura.

CONVERGÊNCIA – Ele não está sozinho. Ratinho Júnior, governador do Paraná, já admitiu publicamente aceitar uma candidatura presidencial pelo PSD ou até mesmo ao Planalto, se houver convergência. O cálculo é o mesmo: para disputar, terá de deixar o cargo no mesmo prazo. Em Minas Gerais, Romeu Zema (frequentemente citado como presidenciável no campo liberal) também se enquadra nessa regra, assim como Ronaldo Caiado, em Goiás, e Eduardo Leite, no Rio Grande do Sul, cujo nome volta e meia ressurge nas rodas políticas como alternativa de centro.

O que une esses governadores não é apenas o calendário, mas a tentativa de ocupar um vácuo político que se abre entre a polarização consolidada e o cansaço do eleitorado. Ao mesmo tempo, o que os separa é a capacidade de transformar viabilidade administrativa em densidade eleitoral — um desafio que o Brasil já viu derrotar muitos “bons gestores” nas urnas.

MICHELLE BOLSONARO – Nesse tabuleiro, outro movimento chama atenção: a crescente presença política de Michelle Bolsonaro. Em reação a críticas do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, ela divulgou carta pública nas redes sociais, rebatendo questionamentos sobre sua atuação. O episódio mais recente ocorreu após Michelle compartilhar um vídeo de Tarcísio de Freitas criticando a política econômica do governo Lula e, simultaneamente, curtir um comentário da primeira-dama paulista sugerindo que o governador deveria ser “o novo rumo do Brasil”.

O gesto, aparentemente trivial no universo das redes sociais, tem peso simbólico. Michelle ocupa hoje um espaço singular no bolsonarismo: não é apenas herdeira de um capital eleitoral expressivo, mas também um termômetro das tensões internas do campo conservador. Ao sinalizar simpatia por Tarcísio, ainda que de forma indireta, ela alimenta especulações sobre alianças futuras e sobre quem poderá herdar, de fato, o espólio político de Jair Bolsonaro.

Ao longo dos últimos meses, esses sinais dispersos compõem um mesmo enredo: a eleição presidencial já começou nos bastidores. Governadores calculam prazos, grupos testam narrativas e lideranças digitais disputam influência. Nada está decidido, mas muita coisa já está em jogo. No Brasil, como a experiência ensina, quem subestima o peso desses movimentos preliminares costuma chegar atrasado à largada.

Lula na frente, oposição fragmentada e o desafio de unir a direita

Lula segue favorito para as eleições 2026

Pedro do Coutto

A mais recente pesquisa do Instituto Quaest, divulgada em reportagem de Caio Sartori e Rafaela Gama em O Globo, ajuda a iluminar, com razoável nitidez, o cenário que começa a se desenhar para a sucessão presidencial. O presidente Lula da Silva segue na dianteira, liderando as intenções de voto tanto no primeiro quanto em eventuais cenários de segundo turno. Não se trata apenas de vantagem numérica, mas de uma posição política consolidada: Lula aparece como o nome mais reconhecido, mais testado eleitoralmente e, sobretudo, aquele que reúne hoje as melhores condições objetivas para disputar a própria reeleição.

No campo da oposição, o dado mais relevante talvez não seja apenas quem aparece em segundo lugar, mas a fragilidade estrutural do conjunto. Flávio Bolsonaro desponta como o nome mais competitivo entre os adversários do presidente, superando outros postulantes ligados ao bolsonarismo ou à direita tradicional. Ainda assim, a distância que o separa de Lula permanece significativa.

MARGEM CONFORTÁVEL – Em cenários simulados, o presidente vence Flávio Bolsonaro com margem confortável, algo em torno de 36% a 23%, enquanto os demais candidatos aparecem com índices ainda mais modestos. Governadores frequentemente citados como alternativas, como Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Romeu Zema ou Eduardo Leite, não conseguem romper a barreira da baixa projeção nacional, ficando presos a percentuais que, isoladamente, não sustentam uma candidatura presidencial viável.

Há, além disso, um elemento institucional que pesa contra a oposição: o calendário. A Constituição impõe a desincompatibilização dos governadores seis meses antes da eleição, o que significa que qualquer projeto presidencial exigiria renúncia antecipada, risco político e reorganização dos estados. Até agora, nenhum desses atores demonstrou disposição clara para esse movimento.

Tarcísio de Freitas, por exemplo, já sinalizou que não pretende disputar a Presidência, o que torna irrelevantes, do ponto de vista prático, as simulações que o incluem na corrida. O mesmo vale para outros governadores, mais inclinados a preservar seus projetos locais ou a mirar o Senado e a Câmara dos Deputados como caminhos mais seguros para manter capital político.

ALIANÇAS – Nesse contexto, a hipótese frequentemente levantada de uma união absoluta da oposição em torno de Flávio Bolsonaro parece mais teórica do que real. No papel, alianças se desenham com facilidade; na prática, ambições pessoais, divergências regionais e disputas partidárias tornam improvável uma convergência plena.

A transferência automática de votos — como se eleitorado fosse patrimônio negociável — raramente se confirma nas urnas. Cada estado tem sua própria dinâmica, seus próprios conflitos e seus próprios interesses, o que dificulta a construção de um palanque nacional coeso contra um presidente que dispõe da visibilidade, da máquina administrativa e do poder de agenda inerentes ao cargo.

CONTEXTO POLÍTICO – Tudo isso contribui para reforçar a posição de Lula. Não apenas pelos números frios das pesquisas, mas pelo contexto político que os envolve. O presidente tende, como ocorre historicamente com ocupantes do Planalto, a crescer ao longo do processo eleitoral, seja pelo uso estratégico das políticas públicas, seja pela capacidade de dialogar com diferentes segmentos sociais.

As pesquisas sucessivas, consideradas confiáveis quando comparadas a pleitos anteriores, indicam uma estabilidade favorável ao governo, ao mesmo tempo em que expõem a dificuldade da oposição em apresentar um projeto alternativo claro, competitivo e unificado.

FAVORITISMO – Ainda assim, o quadro não está fechado. Campanhas são organismos vivos, sujeitos a crises, rearranjos e mudanças de humor do eleitorado. O que os dados atuais sugerem, contudo, é que Lula entra no jogo como franco favorito, enquanto seus adversários seguem presos a um dilema: disputar entre si ou tentar, sem garantia de sucesso, uma unidade tardia.

Se nada mudar de forma substantiva, a vantagem do presidente tende não apenas a se manter, mas a se ampliar — e a possibilidade de uma vitória já no primeiro turno, hoje ainda hipótese, passa a integrar com mais seriedade o horizonte político brasileiro.

Repressão, revolta e retórica: o Irã no centro de uma nova crise internacional

Por que o Banco Central cedeu à inspeção do TCU, mas blindou a liquidação do Banco Master ?

Banco Master: quando a omissão regulatória vira prejuízo social

O caso Banco Master : regulação, política e confiança pública

TCU pode investigar a legalidade dos atos praticados

Pedro do Coutto

Na semana que se inicia, o que parecia um embate técnico entre instituições brasileiras ganhou contornos mais amplos — e potencialmente mais profundos — no tabuleiro institucional e político do país. O processo a respeito da liquidação do Banco Master — uma instituição de porte mediano que veio crescendo rapidamente nos últimos anos — caminha agora para um momento decisivo nos tribunais e levanta questões que vão muito além da regulação bancária e da legalidade da intervenção do Estado na economia.

O caso começou, em novembro de 2025, com a decisão do Banco Central (BC) de decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, em meio a alegações de sérios problemas de liquidez e violações normativas que comprometeriam a solidez da instituição. Na mesma ocasião, o controlador do banco, Daniel Vorcaro, foi detido pela Polícia Federal no contexto de uma investigação mais ampla — a chamada Operação Compliance Zero — que apura irregularidades na emissão de títulos e possíveis fraudes.

COMPETÊNCIA – O Tribunal de Contas da União (TCU), instância que não tem poder de reverter a liquidação, entrou em cena para examinar se o BC agiu dentro dos parâmetros legais e procedimentais esperados de uma autoridade reguladora de um sistema financeiro. O presidente do TCU, Vital do Rêgo, sinalizou com clareza: o tribunal não tem competência para desfazer a liquidação decretada pelo Banco Central, mas pode investigar a legalidade dos atos praticados, revisando os “atos motivacionais” que embasaram a medida.

O teor desta investigação tornou-se um foco político significativo porque revela tensões entre a autonomia do Banco Central — defendida por setores da comunidade financeira e por grande parte do próprio TCU — e o escrutínio externo que se instaura num momento de fragilidade institucional. Enquanto técnicos do tribunal, em análise preliminar, já indicaram que o BC atuou de forma adequada, cabendo apenas esclarecer fundamentos e motivos formais, outro ministro do TCU chegou a propor medidas cautelares que limitassem a venda de ativos do banco em liquidação, gerando reação e discussão sobre os limites e procedimentos de atuação da Corte.

CONFIANÇA –  A repercussão desse episódio vai além do campo jurídico-técnico e toca no âmago da confiança no sistema financeiro e na estabilidade das regras do jogo institucional no Brasil. Para milhões de investidores que aplicaram seus recursos no Master, muitos deles na expectativa de receber valores garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — um mecanismo crucial de proteção a depositantes e investidores —, a forma como o caso é resolvido afetará não apenas a restituição de bilhões de reais, mas também a percepção sobre a eficácia e os limites da regulação no país.

Além disso, a sucessão de decisões técnicas e as declarações de lideranças envolvidas refletem um momento em que instituições clássicas — como o Banco Central e o TCU — se veem pressionadas a justificar, com transparência, suas ações não apenas perante o direito, mas perante a opinião pública. Esse tipo de escrutínio é saudável em democracias maduras, mas também exige responsabilidade institucional para que o debate não se transforme em um jogo de forças que fragilize o próprio sistema financeiro ou a confiança do mercado.

PONTO DE INFLEXÃO – O comentário do jornalista Elio Gaspari, ao destacar que o TCU “sabe como e onde intervir” com base em informações internas do Banco Master, é um sinal de como a imprensa especializada percebe a complexidade deste caso: não apenas como um litígio técnico, mas como um ponto de inflexão que expõe falhas, desafios e responsabilidades nas práticas de supervisão financeira.

No fundo, o que está em jogo não é apenas um banco, nem apenas a aplicação de regras contábeis ou jurídicas: é a confiança de investidores, a credibilidade de órgãos regulatórios e a clareza com que o Brasil lida com casos complexos de intervenção no mercado financeiro. Em um cenário em que instituições como a Suprema Corte e o TCU estão chamadas a balizar decisões em temas sensíveis, este episódio pode marcar um precedente para os limites entre autonomia regulatória, controle externo e o papel político de decisões econômicas que impactam a vida de milhões de brasileiros.

À medida que o processo avança, com reuniões já marcadas entre as altas cúpulas do Banco Central e do TCU, e com prazos para conclusões formais, a sociedade brasileira precisa acompanhar com rigor e senso crítico — não apenas os aspectos técnicos, mas também as implicações para a governança institucional e a percepção de que o Estado e suas instituições podem responder de forma eficaz e transparente às crises.

No Banco Máster, a blindagem patrimonial fracassa, mas as instituições resistem

Fracasso da estratégia de Vorcaro é um recado claro ao mercado

Pedro do Coutto

A decisão da Justiça dos Estados Unidos de reconhecer a liquidação do Banco Máster determinada pelo Banco Central do Brasil é mais do que um revés jurídico para Daniel Vorcaro. Ela funciona como um teste de estresse institucional — e, até aqui, o sistema tem respondido melhor do que muitos imaginavam.

Reportagem de Ivan Martínez-Vargas, O Globo, revelou com precisão a estratégia adotada pelo banqueiro para tentar proteger ativos no exterior e, na prática, escapar do alcance dos credores. A manobra falhou. O Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida, reconheceu a legitimidade da liquidação brasileira, esvaziando a principal aposta de Vorcaro: usar a jurisdição americana como refúgio patrimonial.

BLINDAGEM – O episódio lança luz sobre a intensidade — e a ousadia — da tentativa de blindagem. Ao buscar o reconhecimento de uma suposta insolvência transnacional em termos favoráveis a si mesmo, Vorcaro pretendia impedir que ativos nos Estados Unidos fossem preservados para a massa de credores sob administração do liquidante nomeado pelo Banco Central. O pedido foi rechaçado após manifestação da empresa responsável pelo regime especial de liquidação, que contestou os argumentos do banqueiro ponto a ponto.

Não se trata apenas de uma disputa técnica. Há um componente ético e político evidente. A estratégia, agora frustrada, tinha um objetivo simples e brutal: ganhar tempo, dissipar patrimônio e deixar credores a descoberto. A decisão americana, ao reconhecer a liquidação brasileira, reforça um princípio essencial ao sistema financeiro global: não há atalhos legítimos para fugir de responsabilidades quando autoridades regulatórias agem dentro da lei.

PERPLEXIDADE – Os efeitos dessa decisão ultrapassam as fronteiras. No Brasil, ela enfraquece a ofensiva paralela que buscava, no Tribunal de Contas da União, criar um ambiente de instabilidade em torno da decisão do Banco Central. Ministros do Supremo Tribunal Federal, segundo relatos de bastidores amplamente divulgados por colunistas como Malu Gaspar, receberam a iniciativa com perplexidade. A avaliação é quase unânime: qualquer tentativa de desconstituir a liquidação extrajudicial seria rapidamente derrubada pelo STF, cuja jurisprudência é clara na proteção às decisões técnicas de agências reguladoras, especialmente em matéria bancária.

Há também um dado que não pode ser ignorado. Poucos meses antes da liquidação, empresas ligadas a Vorcaro realizaram aquisições imobiliárias vultosas nos Estados Unidos. Informações apontam compras que somam centenas de milhões de reais, incluindo uma mansão em um dos condomínios mais exclusivos de Miami. Um escritório de grandes dimensões em um arranha-céu de luxo chegou a ser adquirido e jamais ocupado. No mínimo, são movimentos que reforçam a suspeita de tentativa de ocultação patrimonial às vésperas do colapso.

RUÍDO – No plano político, o caso produziu ruído. A atuação do TCU, as movimentações no STF e a preocupação explícita do Palácio do Planalto com a repercussão no mercado financeiro revelam um ponto sensível: a necessidade de preservar a autoridade do Banco Central em decisões duras, porém necessárias. O presidente Lula, segundo interlocutores, buscou compreender o cenário e manifestar apoio institucional à autoridade monetária. Fernando Haddad, mesmo em férias, também atuou nos bastidores em defesa da estabilidade.

Até aqui, o governo tem sido cauteloso. E faz bem. Interferir formalmente poderia alimentar a narrativa de politização de um processo que é, antes de tudo, técnico e jurídico. A melhor resposta tem sido permitir que as instituições funcionem — e, neste caso, elas funcionaram.

RECADO AO MERCADO – O fracasso da estratégia de Vorcaro nos Estados Unidos é um recado claro ao mercado e à sociedade: tentativas de driblar a lei, ainda que sofisticadas e internacionalizadas, encontram limites quando há cooperação entre jurisdições e firmeza regulatória. O desafio agora é garantir que o mesmo rigor prevaleça no Brasil, evitando que manobras protelatórias corroam a confiança no sistema financeiro.

Não é apenas o destino de um banco que está em jogo. É a credibilidade das regras, a proteção dos credores e a mensagem de que enriquecimento à custa de fraude não pode ser normalizado. Neste capítulo, ao menos, a blindagem caiu — e as instituições passaram no teste.

O caso Banco Master e o limite das manobras financeiras

Decisão valida processo brasileiro em território norte-americano

Pedro do Coutto

A decisão da Justiça dos Estados Unidos de reconhecer a liquidação do Banco Master, determinada pelo Banco Central do Brasil, expôs com clareza algo que já se desenhava nos bastidores: a tentativa deliberada de blindagem patrimonial conduzida por Daniel Vorcaro não resistiu ao escrutínio institucional internacional.

Ao negar o pedido apresentado nos tribunais da Flórida, o juiz Scott N. Juracy não apenas reafirmou a legitimidade da autoridade reguladora brasileira, como desmontou uma estratégia que buscava deslocar ativos para fora do alcance dos credores e da própria lei. Não se tratava de uma divergência técnica ou de uma controvérsia jurídica legítima, mas de um esforço sistemático para esvaziar o banco enquanto se tentava preservar fortunas no exterior.

PRESSÕES – O episódio ganha ainda mais relevância porque ocorre em um ambiente de elevada sensibilidade institucional. A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada em novembro pelo Banco Central, passou a sofrer pressões cruzadas — algumas explícitas, outras subterrâneas — envolvendo o Tribunal de Contas da União e setores do Supremo Tribunal Federal.

A reação, no entanto, foi quase unânime nos círculos técnicos e jurídicos mais experientes: qualquer tentativa de reverter a decisão do BC por vias políticas ou administrativas seria rapidamente derrubada pelo STF, dada a jurisprudência consolidada que protege a autonomia das agências reguladoras em matéria de estabilidade financeira. Não por acaso, a movimentação causou desconforto no próprio Palácio do Planalto, onde a percepção é de que o caso gera ruído desnecessário, instabilidade no mercado e riscos à credibilidade institucional do país.

Os fatos materiais reforçam essa leitura. Nos meses que antecederam a liquidação, empresas ligadas a Vorcaro realizaram aquisições imobiliárias vultosas nos Estados Unidos, especialmente em Miami, incluindo uma mansão de altíssimo padrão e escritórios milionários que sequer chegaram a ser ocupados.

QUESTIONAMENTOS – O volume e o timing dessas operações levantam questionamentos legítimos sobre a intenção de preservar patrimônio fora do alcance de credores, enquanto investidores, clientes e o próprio sistema financeiro ficavam expostos a prejuízos bilionários. A tentativa de impedir que o liquidante nomeado pelo Banco Central administrasse esses ativos no exterior foi, nesse contexto, mais um capítulo de uma estratégia que agora se mostra fracassada.

O reconhecimento da liquidação pela Justiça americana produz um efeito pedagógico poderoso. Ele sinaliza que fronteiras nacionais já não funcionam como refúgio automático para operações financeiras de má-fé e que a cooperação institucional, quando acionada corretamente, pode conter práticas que corroem a confiança no sistema.

Ao mesmo tempo, lança um alerta ao Brasil: permitir que disputas políticas ou interesses particulares enfraqueçam decisões técnicas do Banco Central seria abrir um precedente perigoso. O caso Banco Master não é apenas sobre um banco em colapso — é sobre os limites da tolerância institucional com manobras que tentam transformar o sistema financeiro em um jogo sem responsabilidade. Desta vez, ao menos, a Justiça falou mais alto.

Controle econômico da Venezuela pelos EUA redefine poder, soberania e dependências

Entre o exagero e a revisão: o recuo dos EUA na acusação contra Nicolás Maduro

EUA retiram acusação de que Maduro chefiava cartel

Pedro do Coutto

A mais recente reviravolta no caso envolvendo o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro deixou no ar mais perguntas do que respostas sobre a coerência e os objetivos da política externa dos Estados Unidos.

O Departamento de Justiça norte-americano alterou oficialmente a acusação contra Maduro, retirando a afirmação de que ele liderava o denominado Cartel de los Soles — e com isso recuando de uma narrativa que vinha sendo repetida há meses por membros do governo Trump e seus aliados.

PRETEXTO – Originalmente, a acusação formal apresentada em 2020 descrevia Maduro como chefe de um cartel de tráfico de drogas com alcance internacional, vinculando-o diretamente à suposta organização criminosa conhecida pela mídia como Cartel de los Soles. Essa designação foi citada dezenas de vezes no documento legal e usada como pretexto para justificar uma série de ações norte-americanas, inclusive uma operação militar que culminou na captura de Maduro e de sua esposa em Caracas no último sábado.

Na nova versão do indiciamento, contudo, o Departamento de Justiça mantém as acusações de narcotráfico e narcoterrorismo, mas suaviza a linguagem ao recusar-se a rotular Maduro como líder de um cartel formal. Em vez disso, o texto revisado afirma que ele teria “participado, protegido e perpetuado uma cultura de corrupção de enriquecimento a partir do tráfico de drogas”, caracterizando um “sistema de clientelismo” no qual elites civis e militares se beneficiaram de práticas ilícitas, sem a configuração típica de um grupo criminoso estruturado.

Esse recuo aponta para o que analistas e críticos já vinham observando: a designação do Cartel de los Soles como organização criminal formal é muito mais retórica política do que produto de provas jurídicas robustas. O termo, usado há décadas em reportagens e análises sobre a Venezuela, refere-se a símbolos e práticas de corrupção associadas a militares, mas nunca foi comprovado como uma entidade coesa com hierarquia e comando únicos.

FRAGILIDADE – A mudança de narrativa pelos EUA não apenas expõe a fragilidade de uma das acusações mais impactantes no processo contra Maduro, mas também levanta questões sobre os métodos e fins da política externa norte-americana. Se uma das bases públicas para a detenção e julgamento de um chefe de Estado — algo raríssimo no direito internacional — não se sustenta juridicamente, qual é, de fato, o propósito da operação? Os Estados Unidos continuam a acusar Maduro de crime organizado e tráfico de drogas, mas sem a contundência que antes alegavam.

Esse episódio tem repercussões relevantes para a credibilidade do sistema de justiça norte-americano e para a política internacional em geral. Quando narrativas são construídas com base em termos não verificados e depois revisadas publicamente, abre-se espaço para a desconfiança sobre os verdadeiros motivos que orientam ações tão dramáticas quanto a captura de um líder estrangeiro. Além disso, a crise evidencia que combater o tráfico de drogas não se limita a ações policiais ou militares, mas precisa enfrentar, simultaneamente, as causas profundas do consumo e da demanda, que alimentam essas redes ilícitas em escala global.

No fim das contas, o recuo na acusação contra Maduro não enfraquece apenas uma denúncia judicial: revela a necessidade de transparência e rigor na construção de narrativas que, em última instância, moldam decisões de Estado com consequências geopolíticas profundas.

Entre a força e o princípio: o caso Maduro e seu impacto no Brasil

Lula recusou apoio tanto à ação militar quanto a Maduro

Pedro do Coutto

O encerramento do primeiro capítulo da chamada “operação Nicolás Maduro” — assim batizada por seus críticos e defensores — projeta sombras longas sobre o cenário político latino-americano e, de maneira particular, sobre as eleições presidenciais brasileiras de outubro. Mais do que um episódio isolado da já turbulenta relação entre Estados Unidos e Venezuela, o caso passou a operar como um teste político e moral para lideranças da região, obrigadas a se posicionar diante de um dilema clássico da política internacional: como condenar abusos de poder sem legitimar ações de força igualmente questionáveis.

No Brasil, onde se encontra o maior eleitorado da América Latina, o episódio tende a ser incorporado ao debate eleitoral. Não como tema central, mas como marcador simbólico de posições. A reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao recusar apoio tanto à ação militar quanto à figura de Nicolás Maduro, acabou por reforçar sua candidatura. Lula adotou uma linha que dialoga com o sentimento predominante em amplos setores da comunidade internacional: a rejeição à intervenção armada estrangeira, sem que isso implique endosso a governos acusados de práticas autoritárias.

RECUO – Essa postura não é trivial. Conforme noticiado por O Globo, setores da esquerda latino-americana e brasileira têm recuado de uma defesa automática do governo venezuelano, após críticas nas redes sociais e constrangimentos eleitorais recentes. O movimento revela uma inflexão importante: a tentativa de separar a crítica ao imperialismo e às ações unilaterais dos Estados Unidos da necessidade de reconhecer os impasses democráticos internos da Venezuela. Trata-se de um ajuste fino, politicamente arriscado, mas talvez inevitável.

O episódio envolvendo Maduro — cercado de controvérsias jurídicas e políticas — abriu espaço para um debate mais amplo sobre soberania, legalidade internacional e os limites da ação militar. A maioria dos países, inclusive aliados históricos de Washington, manifestou-se de forma crítica a qualquer operação que implique sequestro de um chefe de Estado e seu julgamento fora dos marcos do direito internacional. No Conselho da ONU, prevaleceu o entendimento de que violações à democracia não podem ser combatidas com métodos que também agridem princípios fundamentais do sistema internacional.

É evidente que Nicolás Maduro enfrenta acusações graves e um crescente isolamento político. Ainda assim, a constatação — e não a defesa — de que ele poderá ser condenado em instâncias internacionais não legitima uma ação armada conduzida à revelia do consenso global. A entrada direta dos Estados Unidos no caso, com o uso da força, reacendeu memórias incômodas na América Latina, região historicamente marcada por intervenções externas que produziram mais instabilidade do que soluções duradouras.

REPERCUSSÃO – No plano interno brasileiro, esse choque entre forças antidemocráticas distintas tende a repercutir no discurso eleitoral. Candidatos serão pressionados a explicar onde traçam a linha entre o combate a regimes autoritários e a defesa do direito internacional. Lula, ao alinhar-se a uma posição compartilhada por diversos países e ao mesmo tempo manter distância crítica de Maduro, ocupa um espaço de equilíbrio que pode se revelar eleitoralmente vantajoso.

O caso, em última instância, expõe uma realidade desconfortável: não há soluções simples quando princípios entram em colisão. Condenar Donald Trump por uma ação de força não significa absolver Nicolás Maduro de seus erros; apoiar a democracia não autoriza o atropelo das regras que a sustentam. É nesse terreno ambíguo, mas politicamente fértil, que a campanha brasileira deverá caminhar — e onde o eleitorado será chamado a decidir não apenas sobre nomes, mas sobre valores.

Trump, Venezuela e o preço da submissão

Entre a queda do ditador e o peso da força: a Venezuela no fio da navalha

América do Sul observa ações de Trump com apreensão

Pedro do Coutto

É difícil — para não dizer impossível — aplaudir a ação militar americana que resultou na prisão de Nicolás Maduro ao lado de sua esposa. A política internacional raramente oferece escolhas simples, e a Venezuela, hoje, está no centro de um dilema que preocupa não apenas seus cidadãos, mas todo o continente sul-americano.

A captura de Maduro não encerra a crise venezuelana; ao contrário, abre uma fase ainda mais delicada. A pergunta inevitável é: quais serão os próximos passos de Washington? A história recente da política externa dos Estados Unidos recomenda cautela. Intervenções realizadas em nome da democracia frequentemente produziram efeitos colaterais duradouros, instabilidade regional e dependência política.

“ADMNISTRAÇÃO” – O anúncio do presidente Donald Trump de que haverá uma “administração de transição” para conduzir o país rumo a uma solução democrática soa, no mínimo, vago. Não há prazos, não há um desenho institucional claro e tampouco garantias de que essa transição será, de fato, temporária.

O próprio Trump demonstrou incerteza ao falar sobre como essa administração funcionará e por quanto tempo permanecerá. Essa indefinição alimenta o temor de uma ocupação prolongada, ainda que não formal, em um país já devastado por anos de crise. A ausência de um cronograma e de compromissos objetivos com a soberania venezuelana fragiliza o discurso democrático e fortalece a narrativa, tão comum na região, de que a força se sobrepõe ao direito.

Há também o custo humano, frequentemente relativizado nos discursos oficiais. A operação militar que levou à prisão de Maduro deixou cerca de 40 mortos. Não se trata de um “dano colateral” abstrato, mas de vidas interrompidas em um país que já convive com escassez, migração em massa e trauma coletivo. Democracia alguma se constrói sobre cadáveres ignorados, e esse preço pesa sobre qualquer avaliação moral da ação.

PETRÓLEO – O petróleo, por sua vez, surge como um elemento central — talvez decisivo — nesse novo capítulo. A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas do mundo, e Trump foi explícito ao afirmar que empresas americanas terão papel relevante na retomada do setor petrolífero.

Do ponto de vista econômico, é compreensível que os Estados Unidos busquem segurança energética e oportunidades para suas companhias. Do ponto de vista político, porém, isso torna o discurso humanitário mais frágil. Quando a democracia caminha lado a lado com interesses econômicos bilionários, a desconfiança se instala quase automaticamente.

SEM LEGITIMIDADE – O complexo petrolífero venezuelano é extremamente sensível. Qualquer mudança abrupta, sem consenso interno e sem legitimidade reconhecida pela sociedade, pode aprofundar tensões e gerar novos conflitos. A reconstrução institucional do país exige mais do que a substituição de um líder autoritário; requer pactos, inclusão política, eleições confiáveis e, sobretudo, protagonismo dos próprios venezuelanos.

A América do Sul observa esse processo com apreensão. O precedente é perigoso: um ditador cai, mas pela força externa; a promessa democrática existe, mas sem contornos claros; e os interesses estratégicos falam alto desde o primeiro momento. O risco é que a queda de Maduro, em vez de inaugurar uma era de estabilidade, acabe reforçando a lógica da tutela e da dependência.

Quando o fiscalizador vira fiscalizado: Banco Master é o teste de fogo das instituições

Ilustração Zero Hora

Pedro do Coutto

A decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de investigar os atos do Banco Central que antecederam a liquidação do Banco Master marca um daqueles raros momentos em que o sistema de controle do Estado brasileiro se volta para dentro, examinando não apenas o colapso de uma instituição financeira, mas o comportamento de quem tinha o dever legal de evitar que esse colapso atingisse poupadores, investidores e, em última instância, a própria credibilidade do mercado.

A reportagem de O Globo, assinada por Geraldo Haddad e Paulo Renato Nepomuceno, expõe um ponto sensível: documentos internos do Banco Central, produzidos antes da decretação da liquidação, indicariam inconsistências, omissões ou decisões tardias diante de um quadro de insolvência que, segundo especialistas, já se arrastava havia tempo. Não se trata de uma suspeita trivial. A liquidação de um banco não é apenas um ato técnico; é uma medida extrema, com efeitos econômicos, jurídicos e sociais profundos.

CONTROVÉRSIA – O ineditismo da iniciativa do TCU — investigar atos de um órgão regulador independente como o Banco Central — explica parte da controvérsia. Há quem sustente que o tribunal estaria extrapolando suas atribuições, invadindo uma seara regulatória protegida por autonomia técnica. Esse argumento encontra eco em setores do mercado financeiro e em juristas que veem risco de insegurança institucional caso decisões técnicas passem a ser revistas sob critérios políticos ou administrativos.

Mas o outro lado da balança é igualmente relevante. Autonomia não é sinônimo de ausência de controle. O Banco Central administra poderes que afetam diretamente o patrimônio de milhões de brasileiros. Quando uma instituição financeira continua operando apesar de sinais reiterados de insolvência — ainda que sob o argumento de “falta momentânea de liquidez” —, a pergunta inevitável é: quem falhou e por quê? O TCU, ao solicitar acesso a pareceres, notas técnicas e decisões internas, não questiona apenas o desfecho, mas o caminho percorrido até ele.

O presidente do tribunal foi direto ao apontar “indícios de questões não claramente explicadas”. Traduzindo do juridiquês para o português claro: há a suspeita de que decisões cruciais tenham sido adiadas ou tomadas sem a transparência necessária, potencializando prejuízos a correntistas e investidores que não contribuíram em nada para a má gestão do banco. Esses atores são, no fim da cadeia, as principais vítimas de uma supervisão frouxa ou tardia.

CONTA FINAL – O caso ganha ainda mais densidade quando inserido em um quadro mais amplo de fragilidades institucionais. O rombo no INSS, a insolvência estrutural dos Correios e o déficit crônico de fundos de pensão como o Postalis formam um mosaico preocupante. Em todos esses episódios, há um elemento comum: a conta final tende a recair sobre o Estado — e, portanto, sobre o contribuinte — quando os mecanismos de controle falham ou chegam tarde demais.

É nesse ponto que a investigação do TCU deixa de ser apenas um debate técnico e assume dimensão política. Se ficar demonstrado que o Banco Central dispunha de informações suficientes para agir antes e não o fez, estaremos diante de um problema grave de governança. Se, ao contrário, a apuração concluir que as medidas adotadas foram as únicas possíveis dentro do arcabouço legal, o tribunal terá ao menos cumprido um papel essencial: oferecer à sociedade uma explicação documentada e transparente.

O argumento de que “não há precedente” para esse tipo de investigação soa frágil diante da natureza do problema. Precedentes não surgem do nada; eles se constroem quando a realidade impõe novos testes às instituições. A verdadeira ameaça à segurança jurídica não é a fiscalização, mas a opacidade. Mercados sólidos dependem menos de silêncio institucional e mais de confiança — e confiança se constrói com luz, não com sombras.

RIGOR – Ao fim, o caso Banco Master é menos sobre um banco específico e mais sobre o funcionamento do Estado regulador no Brasil. Se o TCU conduzir sua investigação com rigor técnico, respeito às competências e transparência, poderá contribuir para algo raro no país: o fortalecimento simultâneo do controle público e da credibilidade das instituições. Se falhar, restará a sensação conhecida de que, mais uma vez, os erros se repetem e os prejuízos são socializados.

O que está em jogo, portanto, não é apenas o passado de uma liquidação bancária, mas o futuro da confiança no sistema financeiro e na capacidade do Estado brasileiro de aprender com seus próprios erros.

A dança das cadeiras na Esplanada e o teste de maturidade do governo Lula

Entre a esperança e a disputa: o importante ano político que se inicia

Charge do Gilmar Fraga (Zero Hora)

Pedro do Coutto

O Ano Novo começa, como quase sempre na política, sob o signo da esperança. Não se trata de um sentimento ingênuo, mas de um motor histórico que move partidos, lideranças e eleitores. Juscelino Kubitschek, um dos presidentes mais emblemáticos da República, sintetizou essa lógica ao afirmar que a política se alimenta, antes de tudo, da expectativa.

É essa projeção do futuro — quase sempre idealizada — que sustenta alianças, campanhas e narrativas, mesmo em contextos de desgaste institucional, crise econômica ou crescente desconfiança da sociedade em relação aos seus representantes. Pesquisas recorrentes conduzidas por instituições como a Fundação Getulio Vargas e o Latinobarómetro demonstram que, ainda quando a confiança nas instituições democráticas sofre abalos, a expectativa de mudança permanece como elemento central de mobilização política.

EVENTOS SIMBÓLICOS – Esse sentimento tende a ganhar força em anos marcados por eventos simbólicos de grande impacto coletivo. O calendário deste ano reúne eleições gerais e Copa do Mundo, combinação que intensifica emoções, desloca atenções e cria um ambiente fértil para disputas narrativas.

A política, longe de ser suspensa nesses momentos, adapta-se ao clima social, buscando dialogar com o humor do eleitorado. Estudos analisados por veículos de referência internacional, como The Economist e Le Monde, apontam que grandes eventos esportivos influenciam o estado de ânimo da população e, em certos contextos, acabam sendo incorporados ao discurso político como metáfora de união, superação ou identidade nacional.

No campo eleitoral, esse cenário amplia tanto as oportunidades quanto os riscos. Governos tendem a ressaltar realizações e promessas de continuidade, enquanto a oposição explora frustrações acumuladas e a demanda por renovação. Relatórios do Tribunal Superior Eleitoral e de organismos internacionais de observação democrática indicam que períodos eleitorais costumam intensificar a polarização, mas também elevam o nível de participação cívica, ainda que marcada por conflitos e discursos mais duros.

ESPAÇO DE CONFRONTO – A arena pública transforma-se, assim, em um espaço de confronto permanente entre diferentes projetos de país, mediado por expectativas muitas vezes infladas. Diante desse contexto, o desafio que se impõe à sociedade vai além da escolha entre candidaturas ou partidos. Trata-se de exercer um olhar crítico capaz de distinguir promessa de projeto, emoção de estratégia, esperança legítima de ilusão conveniente.

A política continuará sendo movida pela expectativa — como ensinou Juscelino Kubitschek —, mas a maturidade democrática exige que ela venha acompanhada de memória histórica, responsabilidade coletiva e vigilância cidadã. Só assim o ano que se inicia poderá ser lembrado não apenas pelo entusiasmo do calendário, mas pela capacidade de transformar esperança em decisões conscientes e duradouras.

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