Janaina Paschoal acusa deputado de perseguição: “Antes de me destruir, eu vou arrebentar”

Pelas “dicas”, deputado em questão também faz parte do PSL

Camila Mattoso
Folha

Em discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo nesta segunda-feira, dia 23, a deputada Janaina Paschoal (PSL) disse que está sendo constrangida por outro deputado e que irá arrebentá-lo caso ele continue. Ela não revelou e disse que não revelará o nome do colega por enquanto, mas que o fará caso ele não mude o comportamento.

A deputada deu algumas dicas sobre a pessoa: homem e com poucos votos, já que ela diz que ele se elegeu com os votos dela. Por isso, é possível deduzir que o deputado em questão também faz parte do PSL. Ela ainda disse que ele não será reeleito e talvez até perca o atual mandato se seguir com o constrangimento.

COINCIDÊNCIA  –  “Eu não vou admitir ser constrangida no meu ambiente de trabalho”, disse Janaina no plenário, acrescentando que não será candidata a nenhum cargo na Mesa Diretora da Alesp. “Percebi, de um tempo para cá, uma coincidência muito estranha. Toda vez que eu recebia um colega no gabinete, fosse para tratar de projeto, CPIs ou qualquer composição da eleição à mesa, pessoas ficavam sabendo, apareciam de surpresa no gabinete e participavam da reunião”, iniciou a deputada.

“Foram quatro situações que consegui delinear. Quando alguém está seguindo uma pessoa, está estudando seus passos, por inteligência imagine-se que esse alguém vá disfarçar. Quando a pessoa faz de um jeito para ela perceber que ela está na sua cola, isso vira intimidação. E eu não vou admitir”, continuou. “Antes de me destruir, eu vou arrebentar. Vou arrebentar. Já avisei a pessoa diretamente, não vou falar o nome dela para ninguém”, completou.

“Sou muito boazinha, respeitosa, justa. Mas não mexe comigo, não cruza a linha, não invade meu espaço, porque eu também sei ser o cão”, disse a deputada. “Vai cair. Não vai ser reeleito para o próximo e, se bobear, perde o mandato atual. Porque mexeu com o cão. É só um aviso.”

Bolsonaro e seu vice Mourão já entraram em rota de colisão, é só questão de tempo

Iotti: "vicentríloquo" | GZH

Charge do Iotti (Jornal Zero Hora)

Jussara Soares e Emilly Benhke
Estadão

A relação entre Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão vive mais um desgaste. Causa incômodo no presidente o comportamento do vice, que voltou a dar declarações diárias à imprensa, comentando e até contrariando suas palavras. A avaliação no Palácio do Planalto é a de que Mourão está usando o cargo e até o Conselho Nacional da Amazônia Legal, presidido por ele, para se projetar na disputa eleitoral de 2022.

A aliados, Bolsonaro já deu sinais de que não pretende manter o general como vice na corrida pela reeleição. Para interlocutores da Presidência, Mourão passou a se posicionar no jogo eleitoral quando percebeu que ficaria fora da chapa. O vice já chegou a admitir, em algumas ocasiões, que pode se candidatar a senador, daqui a dois anos.

CITADO POR MORO – O mal-estar entre os dois aumentou após o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro citar o general como uma opção de candidatura de centro nas próximas eleições ao Planalto.

A declaração, feita em entrevista ao jornal O Globo, foi vista por integrantes do governo como uma evidência de que o vice e o ex-ministro continuam se falando.

Mourão disse, por meio de sua assessoria, que isso não tem sentido e que, portanto, não iria se manifestar. Moro também não quis falar sobre o assunto. Os relatos sobre as desconfianças foram feitos ao Estadão por quatro auxiliares do presidente.

DELÍRIO ERA REAL – A tensão nos bastidores do governo ficou explícita na semana seguinte, quando Bolsonaro chamou de “delírio” a existência de um plano, por parte do governo, para criar mecanismos de expropriação de propriedades, no campo e nas cidades, com registros de queimadas e desmatamentos ilegais.

A medida consta de documento do Conselho Nacional da Amazônia Legal, revelado pelo Estadão. “Mais uma mentira do Estadão ou delírio de alguém do Governo. Para mim a propriedade privada é sagrada. O Brasil não é um país socialista/comunista”, escreveu o presidente nas redes sociais.

‘Se alguém levantar isso, eu demito. A não ser que seja indemissível’, diz Bolsonaro

MAIS CRÍTICAS – Horas depois, em conversa com apoiadores, Bolsonaro negou a proposta e disse que “ou é mais uma mentira ou alguém deslumbrado do governo resolveu plantar essa notícia aí.” O presidente não poupou críticas à medida. “A propriedade privada é sagrada. Não existe nenhuma hipótese nesse sentido. E se alguém levantar isso aí, eu simplesmente demito do governo. A não ser que essa pessoa seja indemissível”, afirmou.

Após a bronca pública, Mourão disse que o documento ao qual o Estadão teve acesso era apenas um estudo. “Se eu fosse o presidente, também estaria extremamente irritado porque isso é um estudo, é um trabalho que tem que ser ainda finalizado e só depois poderia ser submetido à decisão dele”, argumentou o vice.

GRAU DE SIGILO – “Eu me penitencio por não ter colocado grau de sigilo nesse documento porque, se eu tivesse colocado grau de sigilo, a pessoa que vazou o documento estaria incorrendo em crime previsto na nossa legislação”.

Ao admitir o vazamento, Mourão afirmou que “alguém mal intencionado pegou e entregou o documento completo para um órgão de imprensa”. Observou, ainda, que ali havia ideias para planejamento estratégico. Antes, no entanto, o vice havia dito que o estudo estava “totalmente fora de contexto”.

NÃO TEM CONVERSA – Em recente declaração à CNN, Bolsonaro desautorizou Mourão afirmando que não conversa com ele sobre Estados Unidos nem sobre qualquer outro assunto. O vice havia dito que “na hora certa” o presidente falaria sobre o resultado das eleições americanas. Bolsonaro ainda não se manifestou sobre a vitória de Joe Biden para a Casa Branca e segue na posição de aguardar o fim das ações judiciais movidas pelo presidente Donald Trump, seu aliado.

“O que ele (Hamilton Mourão) falou sobre os Estados Unidos é opinião dele. Eu nunca conversei com o Mourão sobre assuntos dos Estados Unidos, como não tenho falado sobre qualquer outro assunto com ele”, disse o chefe do Executivo.

EM ROTAS OPOSTAS – Bolsonaro deixou de dar declarações diárias a repórteres diante do Palácio da Alvorada no fim de maio, quando veículos pararam de frequentar o local, que ficou conhecido como “cercadinho do Alvorada”, por falta de segurança. Desde o fim de junho, Mourão, por sua vez, voltou a atender jornalistas diante do gabinete da Vice-Presidência, localizado no prédio anexo do Planalto. O general também intensificou entrevistas e videoconferências.

Embora frequentemente encerre suas declarações dizendo que a palavra final é do presidente, Mourão costuma expor opiniões divergentes de Bolsonaro. O vice, por exemplo, se coloca a favor da tecnologia 5G da chinesa Huawei. Em recente live promovida pelo Itaú, ele voltou a falar em aprofundar a relação com a China na área tecnológica.

OPINIÕES DIVERGENTES – “Vejo com muito bons olhos a oportunidade de aprofundar a cooperação dos outros setores, principalmente na questão de ciência, tecnologia e inovação, onde os chineses estão avançando muito”, afirmou Mourão no mesmo dia em que o governo Bolsonaro aderiu aos princípios de um acordo tecnológico com os Estados Unidos contra o avanço do 5G chinês.

O general também confrontou Bolsonaro ao dizer que o governo brasileiro vai comprar a vacina produzida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Segundo Mourão, a resistência era movida por uma disputa com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
A amizade entre Bolsonaro e Mourão não existe mais. É cada um para seu lado. É quase certo que Mourão se candidate a senador pelo Rio Grande do Sul ou Rio de Janeiro, depende da aceitação. (C.N.)

Um desesperado poema de amor que busca compreensão, na visão de Augusto Frederico Schmidt

Homenagem do dia: Augusto Frederico Schmidt - Best Homenagens

Schmidt era bem humorado e um tremendo gozador

Paulo Peres
Poemas & Canções


O jornalista, conselheiro político, editor, empresário e poeta carioca Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), no poema “Compreensão”, usa palavras conjugadas às verdades para falar com o seu amor.


COMPREENSÃO
Augusto Frederico Schmidt

Eu te direi as grandes palavras,
As que parecem sopradas de cima.
Eu te direi as grandes palavras,
As que conjugam com as grandes verdades,
E saem do sentimento mais fundo,
Como os animais marinhos das águas lúcidas.
Eu te direi a minha compreensão do teu ser,
E sentirei que te transfiguras a ti mesmo revelada.
E sentirei que te libertei da solidão
Porque desci ao teu ser múltiplo e sensível.
Quero descer às tuas regiões mais desconhecidas
Porque és minha Pátria
As tuas paisagens são as da minha saudade.
Quero descer ao teu coração como se descesse ao mar,
Quero chegar à tua verdade que está sobre as águas.
Quero olhar o teu pensamento que está sobre as águas
E é azul
Como este céu cortado pelas aves,
Como este céu limpo e mais fundo que o mar.
Quero descer a ti e ouvir
As tuas manhãs acordadas pelos galos.
Quero ver a tua tarde banhada de róseo como nuvens frágeis
tangidas pelo ventos
Quero assistir à tua noite e ao sacrifício dos teus martírios.
Oh! estrela, oh! música,
Oh! tempo, espaço meu!

Eu te direi as grandes palavras,
As que parecem sopradas de cima.
Eu te direi as grandes palavras,
As que conjugam com as grandes verdades,
E saem do sentimento mais fundo,
Como os animais marinhos das águas lúcidas.
Eu te direi a minha compreensão do teu ser,
E sentirei que te transfiguras a ti mesmo revelada.
E sentirei que te libertei da solidão
Porque desci ao teu ser múltiplo e sensível.
Quero descer às tuas regiões mais desconhecidas
Porque és minha Pátria
As tuas paisagens são as da minha saudade.

Quero descer ao teu coração como se descesse ao mar,
Quero chegar à tua verdade que está sobre as águas.
Quero olhar o teu pensamento que está sobre as águas
E é azul
Como este céu cortado pelas aves,
Como este céu limpo e mais fundo que o mar.
Quero descer a ti e ouvir
As tuas manhãs acordadas pelos galos.
Quero ver a tua tarde banhada de róseo como nuvens frágeis
tangidas pelo ventos
Quero assistir à tua noite e ao sacrifício dos teus martírios.
Oh! estrela, oh! música,
Oh! tempo, espaço meu!

Bolsonaro toma decisões estúpidas todo dia e vai se desmanchar no ar antes de 2022

Bolsonaro, a Rainha Louca

Charge do Duke (domtotal.com)

Fernando Gabeira
O Globo

No auge da quarentena, pensei que a última luta de minha vida seria contra um governo que destrói a natureza, a autoestima e a imagem internacional do Brasil. Confesso que dramatizei. Sinto-me aliviado agora e ouso fazer planos mais ambiciosos para depois da chegada da vacina.

O marco temporal dessa sensação de alívio é anterior à importante derrota de Donald Trump. Ele começa na prisão de Fabrício Queiroz. Ali emergiu com clareza o esquema de financiamento de Bolsonaro e seu clã. Ele não teria mais condições de pregar o fechamento do Congresso ou do STF. Os próprios militares, apesar de ambíguos até ali, não o seguiriam na aventura.

SOS CENTRÃO – Bolsonaro não teve outro caminho além de buscar aliados no Congresso, precisamente aqueles para os quais o desvio de dinheiro público não é um pecado capital. E de se aproximar desse tipo de juiz brasileiro que não hesita em absolver quando há excesso de provas contra o acusado.

A eleição de Biden resultou de uma ampla compreensão de que era necessária uma frente para derrotar Donald Trump e o Partido Republicano. A própria esquerda dos democratas, que vive um momento de ascensão, decidiu conceder para que a vitória fosse possível.

Ao término das eleições municipais, comecei a duvidar se era mesmo necessária uma frente para derrotar Bolsonaro. A construção de um instrumento como esse dá muito trabalho. É preciso constantemente se livrar dos caçadores de hereges, como chamava Churchill os que dentro de uma frente ampla estreitam e intoxicam o espaço com uma permanente lavagem de roupa suja.

POSSIBILIDADES – E se Bolsonaro se derreter com a rapidez com que se derrete Russomanno em suas campanhas? Ou mesmo se for resiliente como Crivella e chegar ao segundo turno com um índice de rejeição tão alto que perca para qualquer adversário?

Não consigo precisar o ritmo, mas acho que Bolsonaro toma decisões estúpidas diariamente e que ele vai se desmanchar no ar. Quando o vi selecionando uma lista de vereadores para apoiar, pensei: perdeu.

Não adianta conferir na urna se Wal do Açaí foi ou não eleita. Um presidente que se dedica a isso de certa forma está apenas dizendo que é pequeno demais para o cargo. Na verdade, essa é sua mensagem cotidiana.

MOBILIZAÇÃO – A constatação, no entanto, não pode desmobilizar. Bolsonaro continua à frente de uma política anticientífica que pode nos custar mais vidas no combate ao coronavírus.

A inexistência de uma frente ampla não significa que ela não possa ser erguida em cada momento em que a democracia for claramente ameaçada.

Da mesma maneira, o fracasso de Bolsonaro não significa que possa ser subestimado. A extrema-direita vai ocupar um espaço, embora muito menor do que ocupou nas eleições de 2018. Assim como na França, ela pode também trocar de líder para se modernizar.

POLARIZAÇÃO EM SP – O quadro eleitoral na maior cidade do país — Covas/Boulos — nos remeteu à clássica polarização do período democrático. Ilusório também pensar que tudo será como antes. O primeiro e grande tema de reflexão é este: Bolsonaro dissolve-se no ar, mas as condições que o fizeram ascender ao governo continuam vivas.

Este período dominado pelo discurso e prática da estupidez deveria ser usado para uma profunda crítica do processo de redemocratização. Mesmo sem a construção de uma frente ampla, a proximidade do abismo nos revelou como somos vulneráveis e semelhantes no ocaso da democracia.

Os Estados Unidos abriram o caminho livrando-se do grande pesadelo. Trilhar esse terreno minado será também de grande utilidade para o Brasil.

ATÉ 2022 – Afinal, são fenômenos políticos em realidades diferentes, mas partem de alguns pontos convergentes, como a aversão às iniciativas multilaterais.

Imitado por Bolsonaro, o isolamento americano abriu um imenso espaço. Biden representa uma correção de rumos, mas seria bom lembrar o tempo perdido: 15 nações asiáticas e da Oceania, representando um terço do PIB mundial, acabam de celebrar um acordo comercial de grande envergadura.

Aqui Bolsonaro briga com a Europa para defender grileiros, incendiários e contrabandistas de madeira. Aqui a Terra é plana, a hidroxicloroquina fabricada pelo Exército é remédio contra a Covid-19. Até quando não sei. Não passa de 2022, estou seguro.

Boulos representa a restauração do lulismo, porque o PSOL virou “linha auxiliar” do PT

Nani Humor: LULISTAS

Charge do Nani (nanihumor.com)

Demétrio Magnoli
Folha

Bruno Covas obteve 32% dos votos no primeiro turno, um resultado fraco que reflete tanto sua falta de brilho quanto a elevada rejeição de João Doria, seu padrinho político. Covas é um gerente cinzento da cidade que existe —ou seja, de uma metrópole cuja riqueza contrasta com níveis intoleráveis de exclusão social e segregação urbana. Mas tem a sorte de enfrentar um adversário que pretende fazer a história girar em círculos, reincidindo no discurso de uma esquerda congelada no tempo.

Guilherme Boulos representa uma renovação de fachada: a restauração do lulismo. O PSOL nasceu como cisão à esquerda do PT, como sonho de recuperação do “PT das origens”.

LEGENDA AUXILIAR – O pacto entre Boulos e Marcelo Freixo, firmado há dois anos, colocou ponto final na aventura, convertendo o partido em legenda auxiliar do PT. Hoje, o partido menor ecoa as sentenças básicas do maior e sua existência reflete, exclusivamente, os benefícios estatais ligados à proliferação de legendas partidárias. Não é casual que, no início da campanha, as celebridades carimbadas petistas tenham oferecido apoio a Boulos, em detrimento do “apparatchik” Jilmar Tatto.

O “PT das origens” desponta, como fantasia, na seleção de Luiza Erundina para vice da chapa. O discurso lulista emerge, como realidade, em cada uma das declarações de Boulos.

A paixão estatista, que caminha junto com o desprezo pela sustentabilidade das contas públicas, espraia-se por todo o programa.

DESATINO FINANCEIRO – Há pouco, iconicamente, os traços gêmeos manifestaram-se na forma de um desatino financeiro. Esquecendo-se de insignificantes detalhes como custos salariais e aposentadorias futuras, Boulos sustentou sua proposta de contratar incontáveis novos funcionários municipais com o argumento de equilibrar a balança previdenciária.

“Como é que ninguém pensou nisso antes!? Gênio! Se dobrarmos o número de funcionários, eliminaremos o déficit; imagina se decuplicarmos…”, ironizou Alexandre Schwartsman.

O passado esmaga o presente, enterrando na ravina do descrédito uma plataforma necessária de reformas de cunho social.

A gestão Covas, como tantas precedentes, governa para uma cidade miniaturizada, que quase cabe na moldura dos rios Pinheiros e Tietê.

PONTOS CORRETOS – Boulos tem razão quando fala em corredores de ônibus, nos contratos municipais com as empresas de transporte, no desamparo dos entregadores de aplicativos, na violência policial cotidiana nas periferias, na desapropriação legal de imóveis privados abandonados. São, porém, apontamentos corretos dissociados de planos abrangentes viáveis.

Covas aponta um dedo acusador para o suposto radicalismo de seu adversário. De fato, porém, falta a Boulos o tempero radical da reforma urbana. O candidato promete construir 100 mil casas populares, retomando a meada conservadora do Minha Casa Minha Vida, um programa imobiliário de criação de guetos urbanos que propicia a constituição de currais eleitorais.

Nesse passo, circunda o imperativo de renovar o centro expandido por meio de arrojados projetos público-privados destinados a erguer áreas de uso múltiplo compartilhadas por diferentes faixas de renda.

SEM PLURALIDADE – “Radical é você”, retrucaria um Boulos utópico ao prefeito que, abraçado ao governador semibolsonarista, reitera infinitamente a cidade da gentrificação, do apartheid urbano e da violência. Mas o Boulos realmente existente não aprendeu nenhuma das lições emanadas do longo percurso do lulismo.

Sobretudo, como seu partido, não entendeu o valor da pluralidade política. “Eu não sou Jair Bolsonaro; trato a democracia, os Poderes, com diálogo”, respondeu Boulos diante de uma indagação sobre suas eventuais relações com a Câmara de Vereadores. “A Venezuela não é ditadura, Cuba não é ditadura, o governo Maduro foi eleito”, exclamou o mesmo Boulos em 2018.

O problema é que um Bolsonaro de esquerda continua a ser um Bolsonaro.​

Justiça do Amazonas manda a júri filho de ex-deputado pela morte de pistoleiro que se negou a matar juíza

TRIBUNA DA INTERNET | Custo da violência e da impunidade no Brasil já chega  a 6% do PIB

Charge do Newton Silva (Arquivo Google)

Deu no Estadão

O juiz George Hamilton Lins, da 1ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Manaus, mandou a júri Givanil Freitas Santos, Jair Martins da Silva e Raphael Wallace Saraiva de Souza, acusados de envolvimento na morte de Luís João Macedo de Souza, o ‘Luís Pulga’. O pistoleiro foi assassinado na noite de 3 de abril de 2008 em um açougue na zona Leste de Manaus.

Os três réus já tinham sido pronunciados pelo crime em 2015, mas a defesa recorreu da sentença no Tribunal de Justiça do Amazonas. No dia 18 de maio deste ano, os desembargadores a 1ª Câmara Criminal da Corte anularam a sentença de pronúncia, remetendo o processo novamente à 1ª Vara do Tribunal do Júri. Com a nova sentença, assinada no último dia 13, o julgamento deverá ser pautado para o próximo ano.

CORONEL PRESO – As informações foram divulgadas pelo Tribunal de Justiça do Amazonas. De acordo com as investigações, Raphael Wallace Souza e seu pai, o então deputado estadual Francisco Wallace Cavalcante de Souza (falecido), teriam cogitado o assassinato da juíza federal Jaíza Fraxe, em razão de ter decretado a prisão do coronel da Polícia Militar do Estado do Amazonas Felipe Arce e de outras pessoas na chamada ‘Operação Centurião’, prejudicando os interesses da ‘quadrilha criminosa da qual faziam parte’.

Raphael e Wallace teriam então pedido ao pistoleiro ‘Luiz Pulga’ que matasse a magistrada. Ele recusou o serviço, o que motivou uma discussão com Raphael, segundo os autos. O filho do ex-deputado teria ainda voltado a procurar ‘Luiz Pulga’ repetindo a proposta.

AMEAÇA DE DELAÇÃO – No entanto, o pistoleiro teria recusado novamente, dizendo ainda que, se o filho do ex-deputado insistisse no plano, delataria o plano ao Ministério Público Federal.

Inconformado com a recusa e preocupado com a ameaça de ser denunciado ao MPF, Raphael teria contratado Juarez dos Santos Medeiros para matar o pistoleiro. De acordo com as investigações, ‘Luiz Pulga’ foi abordado por Jair Martins, que o conduziu a um açougue no bairro Coroado, onde acabou sendo assassinado.

A reportagem busca contato com as defesas dos pronunciados. O espaço está aberto para manifestações.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Nem mesmo quando se tratar de matar uma juíza o processo consegue tramitar com celeridade. A reportagem escancara a realidade da Justiça brasileira, na qual os processos se eternizam e os réus se beneficiam com a prescrição, os recursos protelatórios e a impunidade garantida. E quando a Justiça não funciona, é certo que não existe democracia plena. (C.N.)

Após 28 anos no ar, “Manhattan Connection” deixa a GloboNews e será exibido pela TV Cultura

Manhattan Connection chega ao fim na GloboNews e deve ir para a TV Cultura  | Exame

Caio Blinder, Lucas Mendes e Pedro Rodrigues em novo canal 

José Carlos Werneck

Depois de ininterruptos 28 anos no ar, o Manhattan Connection deixou a Globo News neste domingo e a partir de janeiro próximo vai ser transmitido pela TV Cultura, com os mesmos integrantes: Lucas Mendes, Caio Blinder, Diogo Mainardi, Ricardo Amorim e Pedro Andrade.

Em sua estreia, em 1993, no GNT, o excelente programa teve nomes como Lucas Mendes, Caio Blinder, Nelson Motta, Pedro Andrade, Lúcia Guimarães e a produtora executiva Angélica Vieira.

FRANCIS E JABOR – Em sua trajetória, contou com a participação dos jornalistas Paulo Francis e Arnaldo Jabor, que apimentavam os comentários.

Em 2011, o programa de análises políticas e econômicas transmitido diretamente de Nova York deixou o GNT e migrou para a GloboNews.

O “Manhattan Connection” debate os principais assuntos da semana, em conversas descontraídas, tendo na bancada principal, em Manhattan, Lucas Mendes, Caio Blinder e Pedro Andrade, destacando-se as participações do polêmico jornalista Diogo Mainardi, da Itália, e do economista Ricardo Amorim, do Brasil, discorrendo sobre cultura, economia, política e comportamento, sendo um dos mais interessantes programas da televisão.

Mesclando assuntos políticos com informações sobre pontos pitorescos e bons restaurantes nas participações de Pedro Andrade e, certamente, vai ser um sucesso na grade de programação da TV Cultura.

Deputado do PSOL entra com representação na PGR e pede que Pazuello responda por ação de improbidade

Validade dos exames expira entre dezembro e janeiro de 2021

Deu no Correio Braziliense

A informação de que 6,86 milhões de testes do tipo RT-PCR, para detectar coronavírus, estão perto de perder a validade provocou reações no Congresso. Nesta segunda-feira, dia 23, o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) entrou com representação na Procuradoria-Geral da República pedindo abertura de ação de improbidade administrativa contra o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

O Estadão mostrou, em reportagem publicada no domingo, dia 22, que a validade desses exames – considerados “padrão ouro” para o diagnóstico da covid-19 e com preços que chegam a R$ 400 na rede privada – expira entre dezembro deste ano e janeiro de 2021. Aproximadamente 7,1 milhões de testes estão armazenados em um depósito do Ministério da Saúde, em Guarulhos (SP), e não foram enviados ao SUS nessa pandemia. Do total estocado, 96% (cerca de 6,86 milhões) perdem a validade até janeiro de 2021.

FALHAS –  As evidências de falhas de planejamento e logística ocorrem justamente no período de aumento dos casos de coronavírus no País. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) terá de autorizar eventual renovação da validade dos kits, mas o Ministério da Saúde ainda precisa provar que os testes continuam eficazes após o prazo de validade, de oito meses.

“Diante de conduta tão grave da perspectiva da gestão administrativa e da proteção da vida das pessoas, é imprescindível a atuação deste órgão para responsabilizar o Ministro de Estado da Saúde Eduardo Pazuello pela omissão em encaminhar a distribuição dos kits adquiridos pelo Governo Federal e prestes a serem jogados no lixo em razão do vencimento de sua validade”, escreveu Valente na representação à Procuradoria-Geral da República.

RESSARCIMENTO –  Ao acionar o Ministério Público Federal para apurar responsabilidades pela perda de 6,86 milhões de exames, o deputado também solicitou o “ressarcimento ao erário dos valores gastos com a aquisição e armazenamento dos referidos testes”. Para Valente, Pazuello deve responder a uma ação de improbidade “em razão de sua omissão e negligência na adoção de uma política de testagem em massa da população durante a pandemia de Covid-19”.

Na avaliação do presidente Jair Bolsonaro, quem deve explicações sobre os 6,86 milhões de testes “encalhados” são os governadores e prefeitos, e não o Executivo federal. “Todo o material foi enviado para Estados e municípios. Se algum Estado/município não utilizou deve apresentar seus motivos”, afirmou Bolsonaro pelas redes sociais, nesta segunda-feira, dia  23, a uma apoiadora que o questionou sobre o fato de testes estocados estarem próximos de ir para o lixo.

ESTOQUE – O Ministério da Saúde disse, por sua vez, que entrega os exames de acordo com a demanda de Estados e municípios. Afirmou, ainda, que não mediu esforços para compra de kits de testagem e investimentos em laboratórios. Em nota divulgada no domingo, porém, a pasta não revelou a quantidade do estoque que está perto de perder a validade.

A comissão da Câmara encarregada de acompanhar as ações do governo para combater a pandemia do coronavírus discutirá o assunto, nesta quarta-feira, dia 25, com autoridades do ministério e de conselhos de secretários municipais e estaduais de saúde. Presidente da comissão, o deputado Dr. Luizinho (PP-RJ), criticou o planejamento do governo federal para a entrega de testes.

“Tudo errado! Estimativa de compra errada, distribuição errada. Difícil de entender! Vamos chamar uma audiência pública para o ministério explicar esse absurdo e cobrar qual a estratégia a ser implementada”, disse ele ao Estadão, por meio de mensagem de texto. Nas redes sociais, o deputado também afirmou que “o País precisa de todos os esforços possíveis para não passar por uma segunda onda tão trágica quanto a primeira”.

Barroso diz que “milícias digitais” na internet são uma “versão contemporânea do autoritarismo”

Ministro Barroso elogiou realização das eleições municipais 

Rosanne D’Agostino
G1

O ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou nesta segunda-feira, dia 23, que, mesmo em democracias’, há um “esforço para desacreditar o processo eleitoral”. O ministro disse também que “milícias digitais” na internet são uma “versão contemporânea do autoritarismo” e buscam destruir as instituições democráticas.

De acordo com Barroso, os ataques ao processo eleitoral são um desdobramento da ação de quem quer a “desdemocratização”. Como exemplo, ele citou o caso dos Estados Unidos, onde o resultado da eleição presidencial vem sendo contestado pelo candidato derrotado, o presidente Donald Trump.

“DESDEMOCRATIZAÇÃO” – “Uma versão contemporânea do autoritarismo são essas milícias digitais que atuam na internet, procurando destruir as instituições e golpeá-las, criando um ambiente propício para a desdemocratização”, disse o ministro durante o lançamento de um curso de Direito.

“E com muita frequência, muitas vezes, mesmo nas democracias, há um esforço de desacreditar o processo eleitoral, quando não favoreça essa crença. É o que hoje se observa, segundo alguns autores, nos Estados Unidos, com a recusa de aceitação do resultado que já parece definido”, completou Barroso.

ELOGIO – O ministro também elogiou a realização do primeiro turno das eleições municipais. Barroso disse que o índice de abstenção, de 23%, foi baixo para um pleito disputado em meio à pandemia. Ele celebrou o fato de o resultado ter saído no mesmo dia, apesar do problema operacional que atrasou a apuração.

“Conseguimos fazer uma eleição, evitamos uma prorrogação, adiamos para um momento em que foram feitas com mais segurança, conseguimos que o plano de segurança fosse observado e que não houvesse disseminação da doença, conseguirmos uma abstenção bem baixa, de 23%, conseguimos controlar as fake news, divulgar o resultado no mesmo dia e as pessoas só falam que teve um problema operacional no computador e atrasou duas horas e cinquenta minutos”, disse o ministro.

Facebook conseguiu retirar mais de 140 mil conteúdos por violarem regras eleitorais

Charge do Tigre (Arquivo Google)

Deu no G1

O Facebook divulgou nesta segunda-feira (23) que removeu mais de 140 mil conteúdos que violavam políticas contra interferência eleitoral nesta rede social e no Instagram durante a campanha do 1º turno das eleições municipais.

De acordo com a empresa, eles continham “informações que poderiam desencorajar eleitores de irem votar, como por exemplo o horário errado de abertura das urnas”.

ANÚNCIOS ELEITORAIS – Também nesse período foram rejeitadas 250 mil submissões de anúncios (conteúdos impulsionados) sobre política ou eleições que não continham o rótulo “Propaganda Eleitoral” ou “Pago por”, direcionadas a pessoas no Brasil.

Segundo o Facebook, desde agosto, qualquer pessoa ou organização que queria fazer publicidade sobre política ou eleições no país precisava passar por um processo de autorização, confirmando sua identidade e residência no Brasil.

A companhia disse ainda que cerca de 3 milhões de pessoas acessaram um aviso fixado no topo do Feed de Notícias que convidava os eleitores a se prepararem e conferir os protocolos sanitários para o dia da votação no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGAlém do Instagram, o Facebook é dono do WhatsApp. Isso significa que o grupo é fundamental para evitar fake news e propaganda indesejada ou subliminar, especialmente em época eleitoral, o que indica ser possível “algum controle” sobre a internet. (C.N.)

Entre o sonho e a realidade, o fato concreto é que o Brasil voltou ao mapa mundial da fome

Fome no Brasil: de exemplo mundial à preocupação - GGN

Brasil está de volta ao mapa, agora na escala negativa

Pedro do Coutto

Mais uma vez a realidade desafia os projetos, por melhor elaborados que sejam e cujos objetivos voltam-se para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Em artigo publicado ontem em O Globo, Merval Pereira destaca um estudo da Macroplan, empresa dirigida pelo economista Cláudio Porto, que traça uma estrada para a retomada da economia brasileira. Inclusive recorre a uma bola de cristal para antever o que será o Brasil de hoje a 2030.

Na mesma edição do Globo, reportagem de Cláudia Almeida e Carolina Nalin revela que o Brasil, que havia se livrado dessa chaga, retornou ao mapa mundial da fome. Estava na escala 39 e passou à escala negativa de 62.

DADOS MUNDIAIS – Este estudo foi realizado pelo economista Marcelo Neri, diretor social da Fundação Getúlio Vargas. Os dados são do Gallup e do programa World POTI que pesquisou a situação de 145 países. Este total é a base da pesquisa, e nosso país que estava na 39ª posição passou a 62ª. A alteração ocorreu em 2019.

Na minha opinião, em 2020 terá mantida essa posição. Afinal de contas os salários permanecem congelados e os preços crescendo. Além do mais, o desemprego atinge a cifra absurda de 14 milhões de colocações perdidas.

POPULAÇÃO CRESCE – Um aspecto que não é abordado pelos economistas é o fato de que a população brasileira ainda cresce à velocidade de 1% a/a. Portanto tem que se somar o índice de desempregados ao movimento demográfico. A cada ano, mais de um milhão de jovens completam 18 anos e têm de ser incorporados à estatística do desemprego, caso tenham parado de estudar.

O panorama, portanto, não é dos melhores. Ao contrário, é dos piores, sobretudo em face do endividamento do país. Está atingindo, acentua a Macroplan, 90% do PIB. Alcança, assim, cerca de 6 trilhões de reais, pois o PIB nacional é de 6,6 trilhões de reais.

“A diplomacia brasileira é ingênua, amadora ou imprudente?”, indaga o embaixador Villalva

TRIBUNA DA INTERNET | A falta que faz a Bolsonaro a existência de um  verdadeiro chanceler

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Eliane Cantanhêde
Estadão

Depois de ser alvo de todas as críticas e de o Brasil sofrer todo o desgaste, o presidente Jair Bolsonaro está prestes a reconhecer finalmente, talvez ainda hoje, a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos. Desta vez, porém, os últimos não serão os primeiros, serão os últimos mesmo, para desconforto de diplomatas, militares, empresários, exportadores e analistas. Mas o “capitão” é o “capitão”, o que fazer?

É agora que vai ficar mais evidente ainda a tragédia da política externa brasileira que, segundo o embaixador  “jogou todas as fichas numa só cesta, transformou os EUA na única referência”. Isso, destaca, “não combina com o nosso DNA, a nossa índole, a nossa tradição de política externa, que sempre foi ecumênica e universal”.

UMA VOZ EXPERIENTE – Diplomata de carreira, ex-embaixador no Chile, Portugal e Alemanha, Villalva presidiu a Apex no início do governo Bolsonaro, mas saiu três meses depois, botando a boca no trombone contra o aparelhamento político. Ainda “na ativa”, está licenciado e se soma a ex-chanceleres e a mentes brilhantes da história do Itamaraty na crítica à atual política externa.

Na sua opinião, Biden tem habilidade política, com 36 anos de Legislativo, e vai restabelecer a liderança dos EUA no mundo, não mudando tudo mecanicamente, nem na base do confronto e da agressão, mas sim conversando, articulando, negociando. E, claro, como qualquer líder que se preze, priorizando o interesse do seu País.

Ele, Biden, em algum momento vai olhar para o Brasil, “não com antagonismo, mas com pressões políticas legítimas para que o País mostre resultados no meio ambiente e volte a valorizar o multilateralismo”.

DEMOS TUDO POR NADA – Não será fácil, porque Bolsonaro replica Donald Trump até contra OMS (Saúde), OMC (Comércio) e a própria ONU, mas o Brasil não tem o que perder, já que não ganhou nada com Trump: “o governo brasileiro foi extremamente solícito em tudo, o tempo todo, mas os americanos não cederam nada e extraíram o máximo que puderam”.

Resumindo a longa lista de Villalva: suspensão de visto para americanos (sem reciprocidade), cessão de dados de brasileiros para o “Global Entry”, desistir de um brasileiro para os EUA quebrarem a tradição e presidirem o BID, cota livre de tarifa para o trigo, acesso de carne de porco americano sem contrapartida para a carne bovina brasileira, desequilíbrio em etanol, aço e alumínio, abrir mão do tratamento diferenciado na OMC sem entrar na OCDE. E o Brasil nem mesmo saiu da lista negra dos EUA para propriedade intelectual…

NADA VEZES NADA – “Não levamos nada”, diz o embaixador, apontando o acordo de facilitação de comércio como repetição “bilaterizada” do que foi feito em bloco pela OMC emu 2017.

Além disso, “só serve para diminuir a burocracia, a papelada, e não representa redução de barreiras tarifárias e não-tarifárias, que é o que a gente precisa”. Logo, “é uma política de enxuga-gelo”, diz ele, que é diplomata. E de “engana trouxa”, acrescento eu, que não sou.

Se houve avanço, foi em defesa, mas sem chegar aonde realmente interessa: acesso a financiamento, ou seja, a um naco dos US$ 140 bilhões dos EUA para o setor. E, diante da lista de concessões para lá e nenhum retorno para cá, Mário Villalva pergunta: “A diplomacia brasileira foi ingênua, amadora ou imprudente?” Vale acrescentar: E vai mudar?

FALTA O PILOTO – Para o embaixador Villalva, 44 anos de carreira, o Itamaraty “tem uma das melhores burocracias da República, com pessoas bem selecionadas, bem treinadas, que pensam o Brasil 24 horas por dia, mas não é suficiente ter um Boeing, é preciso um bom piloto”.

Que tal o atual piloto? Resposta: “Os resultados estão aí…” Não custa lembrar que “o piloto é o executor da política externa, mas o formulador é o presidente”.

Eleições 2020: Mais da metade dos prefeitos e vereadores conseguiu se eleger novamente

Charge do Néo Correio (bocadura.com)

Felipe Grandin
G1

Mais da metade dos prefeitos, vice-prefeitos e vereadores conseguiu se eleger para um novo cargo em 2020. Dos 54.504 candidatos que venceram na última eleição municipal, em 2016, 54% ganharam mais uma vez neste ano. No primeiro turno, 61% dos prefeitos eleitos ganharam outro mandato. Dos 3.324 que se candidataram, 2.037 mantiveram o cargo. E outros 4 se elegeram vereadores.

Entre os vice-prefeitos, o índice de sucesso foi menor, de 55%. Dos 3.400 que tentaram, 1.870 venceram a eleição. Desses, 1.177 se reelegeram, 446 se tornaram prefeitos e 247 viraram vereadores. Segundo o cientista político Emerson Cervi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o índice de reeleição dos prefeitos está voltando aos patamares históricos após ter uma forte queda em 2016.

PÓS-IMPEACHMENT – Naquele ano, apenas 46,8% dos prefeitos que tentaram conseguiram um novo mandato. “O ponto fora da curva foi 2016, pós-impeachment da presidente Dilma Rousseff e em um momento de muita crítica à elite política do país”, afirma. “Entre 50% e 60% é o padrão histórico.”

Mais de 80% dos vereadores eleitos em 2016 foram candidatos neste ano. No entanto, eles tiveram uma taxa de sucesso menor que a dos prefeitos. Entre os vereadores, a taxa de sucesso eleitoral foi de 53% em 2020. Ao todo, 47.490 vereadores eleitos em 2016 se candidataram novamente.

Desse total, 23.444 se reelegeram, 1.356 viraram vice-prefeitos e 472, prefeitos. Dos que conseguiram um novo mandato, 87,5% mantiveram o cargo e 12,5% trocaram de função. Os prefeitos foram os que menos mudaram de cargo. E os vice-prefeitos foram os que mais trocaram.

Questão ambiental será dominante na relação entre Brasil e EUA no governo de Joe Biden

: "O ganho de 10 anos vai ser desfeito em menos de dois" |  GZH

Erros de Bolsonaro ameaçam exportações, diz Monica de Bolle 

Deu no Estadão

O Brasil vai ter no meio ambiente o fio condutor das relações bilaterais com o governo Joe Biden, disseram especialistas durante evento promovido nesta quinta-feira, 19, pelo Insper  e pelo Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Eles alertaram que será extremamente importante não apenas para o governo brasileiro, mas principalmente para o setor privado e agrícola, trabalhar para reverter a imagem de “vilão ambiental” que foi construída pelo País no exterior.

“Ainda não existe um posicionamento claro na equipe de Biden sobre o meio ambiente e como essa questão será tratada dentro do governo democrata, mas é claro que ela será essencial”, diz Monica de Bolle, pesquisadora do Petterson Institute e professora da Universidade Sais/Johns Hopkins. Ao lado de outros especialistas, ela participou de uma série especial promovida pelo Insper sobre os impactos do governo Biden para o Brasil.

SUSTENTABILIDADE – Apesar das indefinições que antecedem a posse do democrata, já é possível dizer que a sustentabilidade será o pilar principal da relação EUA-Brasil. “A pauta ambiental será de extrema importância para o País e pode ajudar a aliviar outras barreiras ideológicas que Bolsonaro evidentemente possui em relação a Biden”, analisa Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria Eurasia.

Entre os pontos que o País precisa melhorar, Garman cita a necessidade do governo se empenhar nas negociações do Acordo de Paris e da próxima reunião da Conferência das Nações Unidas Sobre a Mudança Climática, a COP-25, que em virtude da pandemia, acontecerá em novembro de 2021.

Ao seguir por esse caminho, o País terá condições melhores não apenas para fazer negócios com os Estados Unidos, mas também com importantes potências da Europa, algo que está sendo perdido diante da atual imagem de vilão ambiental.

POTÊNCIA AMBIENTAL – “Temos uma agricultura e economia visivelmente sustentáveis, com um ótimo desempenho na preservação ambiental e um marco único de preservação do solo”, destaca Alexandre Mendonça de Barros, especialista em agronegócios e professor da Fundação Getúlio Vargas.

“Temos tudo para ser economicamente e socialmente uma grande potência ambiental, porém, acredito que vai demorar algum tempo até que o mundo volte a ver e reconhecer o potencial brasileiro”, analisa Barros.

A mudança na forma como o governo lida com as questões ambientais, no entanto, não deve partir apenas das lideranças políticas.

PRESSÃO AO GOVERNO – “É muito importante, nesse momento, que o setor privado, principalmente o agro, que pode ser um dos mais afetados em um eventual impasse ambiental com Biden, pressionem o governo a agir de forma diferente e contenham os eventuais impulsos de Bolsonaro de debater mais rispidamente essa questão com o presidente americano”, diz Monica de Bolle.

Se os índices de desmatamento na Amazônia voltarem a piorar durante a gestão Biden, o País poderá receber algumas punições do governo americano.

RISCO DE SANÇÕES –“Biden certamente não dará tanto valor para as birras ideológicas do governo, mas poderá reagir duramente se Bolsonaro continuar agindo com descaso em relação ao meio ambiente, que é uma das grandes bandeiras democratas”, diz Garman.

“Biden sabe a importância das relações com o Brasil e não vejo os Estados Unidos impondo sanções muito duras ao comércio brasileiro, mas acredito em um cenário no qual os americanos poderão aumentar os impostos cobrados sobre produtos chaves que o País exporta aos EUA”, conclui.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
O chanceler Ernesto Araújo, no entanto, prefere transformar o Brasil num pária isolacionista, ao invés de inseri-lo no mercado global. Vamos pagar caro por essa política errática e injustificável, adotada por um governo sem dedicação ao interesse público. (C.N.)

PF faz a maior operação do ano contra tráfico de drogas e bloqueia R$ 400 milhões em bens

Polícia Federal deflagra megaoperação de combate ao tráfico de drogas

A operação da PF foi simultânea em diversas capitais

Dimitrius Dantas
O Globo

Em uma operação que conta com a participação de cerca de 670 policiai, a Polícia Federal (PF) cumpre na manhã desta segunda-feira 66 mandados de prisão e 149 mandados de busca e apreensão naquela que é considerada  a maior operação de 2020 no combate à lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, além de uma das maiores da história na apreensão de cocaína em portos brasileiros.

Batizada de “Enterprise”, a ação é realizada em parceria com a Receita Federal e busca a desarticulação patrimonial de uma organização criminosa especializada no envio de cocaína para a Europa.

AVIÕES & MANSÕES – Segundo a PF, além da prisão e da busca e apreensão, estão sendo sequestrados R$ 400 milhões em bens do narcotráfico por meio do bloqueio de aeronaves, imóveis e veículos de luxo. É possível que novos bens sejam identificados após o cumprimento dos mandados.

A organização criminosa lavava os bens no Brasil e no exterior por meio do uso de laranjas e de empresas fictícias para dar aparência lícita ao lucro do tráfico. Os mandados são cumpridos no Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Bahia e Pernambuco.

ORDENS DE PRISÃO – Além dos mandados de apreensão, também foram expedidas à Interpol ordens de prisão de oito investigados no exterior.

O nome da operação, “Enterprise”, faz alusão à dimensão da organização criminosa investigada, que atua como empreendimento internacional na lavagem de dinheiro e exportação de cocaína, o que trouxe alto grau de complexidade à investigação policial.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
A Polícia Federal se consolida como uma das mais confiáveis instituições do país, apesar das pressões que sofre dos três apodrecidos Poderes. (C.N.)

Justiça absolve Dario Messer, o “doleiro dos doleiros”, por crimes confessados em delação à Lava Jato

Procuradoria deixou de informar Justiça sobre fatos novos

Vinicius Konchinski
Folha / Uol

No último dia 11, a Justiça Federal do Rio de Janeiro absolveu o doleiro Dario Messer por crimes que ele mesmo confessou ter cometido, em delação premiada.

O doleiro foi julgado pelo juiz federal Carlos Adriano Miranda Bandeira, da 4ª Vara Federal do Rio. Messer havia sido denunciado por lavagem de dinheiro, evasão e associação criminosa, crimes investigados na Operação Sexta-Feira 13, de 2009.

CONFISSÃO – Em junho deste ano, o doleiro confessou à Lava Jato do Rio, em delação, que cometeu esses crimes. “Os fatos imputados na operação Sexta-Feira 13 em relação ao colaborador [Messer] são verdadeiros”, informa o anexo 1 do acordo de colaboração firmado com o MPF-RJ (Ministério Público Federal do Rio de Janeiro) e a PF (Polícia Federal).

O Uol consultou cinco juristas sobre a absolvição de Messer. Todos disseram que o juiz Bandeira o julgou corretamente, já que levou em consideração o que estava no processo em sua vara. “O juiz não tinha como decidir citando uma delação se ela não tinha sido incluída na ação penal”, resumiu um advogado que não quis se identificar. Os mesmos juristas veem falha do MPF-RJ ao não levar a confissão de Messer ao processo. “É obrigação da Procuradoria avisar o juiz que obteve uma informação nova e relevante.”

PUNIÇÃO – Um ex-membro da cúpula da PGR (Procuradoria-Geral da República) afirmou ao Uol que uma omissão do MPF poderia levar a punição de procuradores, na corregedoria ou CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público).Procurado, o MPF-RJ informou que só se pronunciará nos autos do processo. O órgão ainda alegou que a ação contra Messer é sigilosa, o que não procede já que a movimentação e decisão do processo estão disponíveis para consulta, conforme pôde constatar a reportagem. O juiz Bandeira informou o UOL de que não se pronunciará sobre sua sentença.

O processo da Sexta-Feira 13 era o único de Messer não contemplado no acordo de delação premiada fechada pelo doleiro. Isso quer dizer que, caso ele fosse condenado pelo caso, teria que cumprir toda a pena imposta a ele.

PROGRESSÃO – Outros processos nos quais o doleiro é réu na Justiça Federal do Rio entraram no acordo com o MPF-RJ. Nesses casos, não importa quantas vezes Messer for condenado, sua pena acumulada será de no máximo 18 anos e nove meses de prisão, com progressão de regime prevista em lei.

O advogado de Messer, Átila Machado, disse que a decisão de Bandeira alinha-se à sentença anterior que o inocentou, do Paraná, que reconhece “que Dario Messer não praticou os crimes apontados na denúncia”.

“Para além disso, essa era a única acusação que não estava contemplada no acordo de colaboração premiada. Portanto, o acordo permanece inalterado”, complementou.

Socióloga diz que Bolsonaro e Mourão usam discurso ancorado na ditadura ao negarem racismo

Presidente e Vice ecoam ideia de democracia racial, afirma Rios

Priscila Camazano
Folha

O assassinato de João Alberto Freitas, um homem negro de 40 anos, por seguranças do Carrefour em Porto Alegre levou a mobilizações antirracistas pelo país e fez lembrar o caso George Floyd, nos EUA.

Ao comentar a morte no supermercado, o vice-presidente da República Hamilton Mourão disse que não existe racismo no Brasil, e o presidente Jair Bolsonaro declarou haver “tentativas de importar para o nosso território tensões alheias à nossa história”.

MESMO DISCURSO – Os dois reproduzem um discurso vastamente usado no período da ditadura militar, segundo a professora de sociologia da UFF (Universidade Federal Fluminense) Flavia Rios, que pregava a existência de uma democracia racial. “Para o país [a ideia] era importante não só para a acomodação dos conflitos internos mas também para fazer essa divulgação de democracia racial para o mundo, por interesses econômicos”, diz Rios sobre o período da ditadura, de 1964 a 1985.

Rios, que organizou com a também pesquisadora e professora Márcia Lima (USP), o recém-lançado “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano” (ed. Zahar), livro de Lélia Gonzalez, falou com a Folha a respeito do mito da democracia racial, da resistência negra na ditadura e das influências que ajudaram a moldar as organizações negras brasileiras. Leia os principais trechos abaixo.

O vice-presidente Hamilton Mourão disse que não há racismo no Brasil e o presidente Jair Bolsonaro contestou o debate sobre racismo no país. Isso ecoa o mito da democracia racial? 
A declaração do vice-presidente da República é totalmente ancorada no discurso da ditadura militar, quando se dizia que no Brasil não havia racismo, que isso era algo de fora, importado, vindo dos EUA. E a fala do presidente Jair Bolsonaro segue a mesma retórica.

É notável que os próprios agentes econômicos que representam o Carrefour internacionalmente, inclusive, reconheceram que o João Alberto foi assassinado e que a motivação foi racial. É de espantar que o vice-presidente recorra ao discurso radical da democracia racial.

E é interessante também que se diga isso no Dia da Consciência Negra. Uma fala como essa vai contra todas as conquistas democráticas do Estado nacional brasileiro de reconhecer que o país é pluriétnico, pluricultural e que tem de enfrentar o racismo, sim, que é muito forte na sociedade.

A cultura de seguranças particulares tem algo a ver com a herança da ditadura? 
Empresas particulares herdam a histórica presença de agentes privados que controlam a violência nos estabelecimentos comerciais e as técnicas de controle e o uso de tortura nos espaços. Há uma década vimos uma experiência parecida com essa em São Paulo, quando um funcionário da Universidade de São Paulo foi brutalmente agredido por seguranças do Carrefour também. [O caso ocorreu em 2009, em Osasco.]
A empresa tem uma política agressiva contra clientes e, evidentemente, aqueles que são enquadrados como perigosos, que são as pessoas negras. Essas seguranças estão orientadas a agredir até as últimas consequências, como nós vimos aqui.

A delegada do caso afirmou que não houve racismo. O mito da democracia racial afeta a percepção de situações como essa?
Há de se notar como as corporações policiais ainda precisam passar por um processo educativo e pedagógico de uma política de segurança pública séria para o entendimento do enfrentamento do racismo. Porque me parece que está muito bem configurada uma experiência de violência racial no caso. E é como os movimentos sociais e a família do João Alberto interpretaram.

Como os militares lidavam com a questão racial? 
A relação era colocar a ideologia da democracia racial num patamar de um nacionalismo forte. Eles adotaram [a ideia de] que no Brasil havia uma democracia entre negros e brancos, e isso implicava a inexistência de um racismo estrutural. Não havia segregação, discriminação e preconceito —e, se aparecesse, era episódico.

Na leitura deles [militares], havia integração das pessoas negras. De forma que, por exemplo, não havia necessidade de se perguntar sobre a cor das pessoas no IBGE.

Do ponto de vista internacional, é interessante porque o Brasil, durante os governos militares, foi signatário de todas as resoluções da ONU que denunciaram a discriminação racial. O Brasil sempre discursou internacionalmente como um país da democracia racial. E todas as vozes que questionaram isso foram brutalmente sufocadas.

Nesse mesmo contexto, é bom destacar que o Brasil expandia suas relações comerciais com os países africanos. Então, era importante não só para a acomodação dos conflitos internos, mas para fazer essa divulgação de democracia racial para o mundo, porque havia interesses econômicos.

A África vivia grandes processos de libertação de independência. A voz que tinha que sair do Estado era a de que havia harmonia e que os negros eram bem tratados.

Quais foram os impactos da decisão de tirar a pergunta sobre cor do Censo de 1970? 
O IBGE pergunta sobre cor desde o século 19. Pesquisadores, historiadores e sociólogos se embasaram muito nos Censos demográficos para entender a dinâmica das relações raciais brasileiras, especialmente o tamanho da população e relacionar isso às condições de vida. Muitas das pesquisas dos anos 1950 e 1960 se valeram do que o IBGE produziu para entender as relações e desigualdades raciais no Brasil.
Com a supressão da pergunta em 1970, não se sabe o que aconteceu nessa década. Não se pode comparar com a década anterior nem com a seguinte, quando a pergunta volta, graças a uma mobilização do ativismo negro.

Lélia Gonzalez, em “Lugar de Negro”, escreveu sobre o impacto repressor da ditadura militar nos movimentos sociais e, por consequência, nos negros. Qual foi esse impacto? 
Gonzalez vai dizer que os parlamentares, negros ou não, que defendiam os direitos ou que tinham afinidades com as demandas das populações negras foram afetados diretamente pela ditadura porque eram representantes oposicionistas ao golpe.

É interessante destacar também o modo como a ditadura atacou diretamente pessoas do dia a dia. Poderia falar dos bailes. É muito importante mostrar que os espaços de sociabilidade e lazer da comunidade negra também foram alvos de controle do regime.

Esses espaços eram vigiados, e as pessoas, brutalmente reprimidas, porque havia uma grande concentração de jovens negros, e, na leitura dos agentes do Estado, tudo indicava que eram subversivos. Justamente porque as músicas questionavam o racismo e valorizavam a identidade e a subjetividade negras.

Nas noites de visibilidade negra, imagens de grandes ícones da luta pelos direitos civis eram reproduzidas como um processo de politização. E, como o regime controlava todos esses espaços, sabia aonde isso poderia chegar. Havia receio dessa politização. Símbolos dos Panteras Negras também chegavam ao Brasil, e isso era objeto de temor.

Como os movimentos negros de outros países influenciaram as organizações no Brasil? 
Um foco de influência importante vem dos contextos de independência dos países africanos, especialmente dos que falam a língua portuguesa. E há um destaque para a África do Sul. O apartheid e a prisão do Mandela se tornaram símbolos do antirracismo mundial.

A ideia de consciência negra vem dessas mobilizações na África do Sul. No Brasil, foi muito encampada essa ideia de que temos que ter uma consciência negra.

Lembro-me de uma charge do Pestana em que ele põe um televisor em uma sala e uma família negra se indignando com a violência na África do Sul, enquanto a Polícia Militar está arrombando a porta da casa. Esse símbolo era o que eles [movimentos negros] estavam querendo construir e dizer que aqui também havia a nossa forma de violência do Estado.

Foram importantes também as organizações de lideranças, estudantes, poetas e artistas de Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde e Angola. Essas pessoas circulavam no Brasil, havia uma rede transnacional de pessoas antirracistas, brancas inclusive.

Há ainda o pan-africanismo, o movimento da diáspora, pessoas que não estão necessariamente em África. E o movimento de direitos civis de Martin Luther King, Rosa Parks, o próprio Malcolm X.

As influências dos movimentos tanto africanos quanto norte-americanos podem ser lidas diretamente pelos movimentos sociais e pelo noticiário. Mas também pela literatura, pela cultura, pela música, pela poesia revolucionária, pelos ensaios críticos, pela produção intelectual e pela circulação dos ativistas brasileiros e estrangeiros no país.

Quem eram as negras e negros da linha de frente contra a ditadura? 
Grosso modo, podemos dividir em três grupos. Pessoas negras que atuaram nas guerrilhas, optando pela forma revolucionária armada, como Osvaldão, Helenira Rezende e o próprio Marighella, que era um homem negro. O filme do Wagner Moura [‘Marighella’, 2019] carrega nas tintas justamente para mostrar essa negritude que às vezes fica um tanto camuflada.

Houve esses perfis negros invizibilizados pela lógica da construção da ditadura militar, que classificou o movimento de resistência como um movimento branco de classe média.

Chamaria a atenção para um segundo grupo que estava formando os movimentos negros e não podia abertamente falar do racismo. Essas organizações de algum modo faziam resistência à ditadura na medida em que o discurso oficial do regime era de que havia uma democracia racial, então todo tipo de movimento que questionava isso estaria confrontando o Estado.

Lélia Gonzalez, Beatriz do Nascimento, Edna Roland, Hamilton Cardoso, Milton Barbosa, Rafael Pinto, todas essas pessoas estavam atuando e reconstruindo as associações negras nas várias partes do Brasil.

Depois, sem hierarquizar grupos, há bases mais populares de associações de favelas, de moradores, de artistas, de pessoas ligadas ao samba e a cultura popular negra. Essas pessoas estavam fazendo, a seu modo, resistência política.

Que fatores levaram ao surgimento do Movimento Negro Unificado em plena ditadura militar?
Na ditadura havia várias organizações negras, culturais, movimentos sociais de base e também toda uma agitação de jovens negros querendo pautar de maneira mais explícita a questão racial. Achavam que era necessário politizar a experiência de racismo.

A oportunidade política foi encontrada quando jovens negros foram impedidos de entrar no Clube Tietê em razão da sua cor [em 1978]. Outra justificativa conjuntural foi o fato de um jovem de Guaianases ter sofrido uma brutalidade policial, porque, segundo o inquérito, roubou frutas no lugar onde trabalhava. Ele foi levado à delegacia e lá foi torturado e assassinado.

O MNU politizou essa morte, entendendo que era uma violência do Estado brasileiro a partir do aparelho repressor da ditadura contra a pessoa negra. As lideranças negras que vinham denunciando o racismo em várias partes do Brasil se organizam para criar uma nova linguagem, mais explícita e radical. O MNU é a radicalização da luta negra durante a ditadura militar.

Qual foi o posicionamento da Comissão da Verdade com relação à resistência negra?
No relatório final da Comissão da Verdade, as resistências negras e indígenas ficaram como anexo. Eles [comissão] se concentraram naquilo que entendiam ser as mortes políticas, pessoas envolvidas em organizações reconhecidamente antiditadura militar.

Na verdade, houve divergência quanto ao entendimento da violência contra as populações indígenas e negras para o escopo daquilo que eles estavam entendendo como violência política. Não dá para dizer que é uma negligência completa porque mantiveram registros, mas o fato de ficar como anexo mostra que houve dificuldade para entender a experiência negra e indígena contra a ditadura militar.

O que a turma do Planalto não faz é prestar assessoria a um presidente irresponsável

Brum on Twitter: "Charge da Tribuna do Norte #charge #brum #charges  #chargespoliticas #governobolsonaro #governofederal #governabilidade  #governabilidadezero #brasil #bicicleta #bolsonaro #cartum #cartunista  #chargistas… https://t.co/XP6jFVESDR"

Charge do Brum (Tribuna do Norte)

Míriam Leitão  e Alvaro Gribel
O Globo

Na frente de quatro chefes de Estado, o presidente do Brasil disse algo do qual recuou 24 horas depois. O fato mostra que não houve assessor, ministro, qualquer pessoa no gabinete ou na estrutura do Palácio que o alertasse de que ele não deveria ameaçar revelar uma lista de países supostamente cúmplices do desmatamento, porque não teria capacidade de sustentar o que dizia. O episódio mostra que o país não tem apenas um presidente irresponsável, tem uma presidência irresponsável.

Em qualquer governo há uma estrutura em torno do chefe de Estado que o alerta, informa e assessora. O Brasil de Bolsonaro não tem isso. Ou é falta de qualificação de quem está em torno dele ou é falta de coragem de enfrentar um presidente temperamental.

ESTULTICE – Não se sabe se aquela estultice estava escrita no texto que ele lia ou se foi um improviso inconsequente. Mas o fato é que dois anos depois de assumir a presidência ele continua desrespeitando o papel de representante do país nos seus encontros internacionais.

O presidente falou para os governantes da China, Índia, Rússia e África do Sul que em breve revelaria os nomes dos países que compram madeira ilegal do Brasil, mostrando entre eles “alguns que muito nos criticam”. No dia seguinte, em rede social, disse o oposto. “A gente não vai acusar país A, B ou C.” Ou seja, o presidente do Brasil mentiu. De novo. E diante daquelas testemunhas, quatro chefes de Estado.

Bolsonaro foi um deputado irresponsável, que se especializou em acusar sem provas ou dizer coisas que chamavam atenção pelo absurdo, como ameaçar fuzilar o ex-presidente Fernando Henrique, dizer que a ditadura deveria ter matado 30 mil, e que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela não merecia.

JAMAIS FOI PUNIDO – Os três fatos narrados acima são crimes. Houve vários outros. A Câmara optou, em seguidos mandatos, por deixar ele cometer esses crimes e jamais o puniu. A deputada Maria do Rosário o processou, mas a Justiça foi tardia e falha.

Foi assim que Bolsonaro chegou à presidência, ficando impune de crimes de ameaça de morte, defesa da tortura, atentado à democracia, homofobia, ataques às mulheres e racismo. Ele levou esse estilo para a presidência. Mente e faz bravatas diante de seus apoiadores no cercadinho do Alvorada, mente e faz bravatas diante de chefes de Estado.

Não há qualquer anteparo. Nada que proteja o Brasil dos absurdos do presidente da República. Esse caso deixa nua a própria presidência, dado que ninguém o impediu de falar o que falou.

É DESINFORMADO – O que disse mostra que ele é um desinformado, como já escrevi aqui. Mais de 80% do que o Brasil extrai de madeira da Amazônia é vendido para o próprio mercado brasileiro, segundo estudo do Imazon.

Os empresários do setor também confirmaram isso e disseram que atualmente não chega a 15% o que é exportado. Países não importam, empresas, sim. E se sabemos quem compra então sabemos quem vende, como lembrou uma servidora do Ibama num telefonema para a CBN.

Empresas que exportam legalmente, que cumprem as leis do país serão punidas agora com o fechamento do mercado para o Brasil. É gravíssimo insinuar que existe em poder da presidência brasileira uma lista de países receptadores de crimes ambientais.

ATENTADO À ECONOMIA – Há erros seriais na declaração de Bolsonaro no Brics. E isso para ficar só num pequeno trecho do discurso cheio de equívocos que leu. A política ambiental é um atentado à economia. Diariamente o presidente dá razões para que se fechem mercados, que não se confirmem acordos, que o Brasil seja isolado comercial e economicamente.

As empresas, os bancos, os fundos, o agronegócio exportador, todos estão alertando sobre isso. Mas o ministro da Economia quando fala sobre a questão ambiental repete a visão calamitosa do presidente da República.

CASO DE DESGOVERNO – Bolsonaro comete essas barbaridades e a estrutura da presidência não o impede, o ministro das Relações exteriores o estimula, o ministro da Economia confirma, o ministro da Justiça senta-se ao lado dele, com a Polícia Federal, para tentar, depois do fato, consertar o que não tem conserto.

Foi um caso exemplar de desgoverno. Esta administração dá provas diárias de que é um perigo para o país em todos os sentidos, na gestão interna e nas relações internacionais. Uma presidência totalmente irresponsável.

Bolsonaro fez papel ridículo ao tentar fugir da responsabilidade por desmatamento e madeira ilegal

Bolsonaro diz que divulgará países que compram madeira ilegal, mas criticam Brasil por desmatamento | Política | G1

Bolsonaro ameaçou citar países que compram madeira ilegal-

Deu em O Globo

O presidente Jair Bolsonaro semeou discórdia durante a cúpula do Brics, na última terça-feira, ao dizer que apresentaria, nos próximos dias, uma lista de países que criticam o Brasil por desmatamento e compram madeira extraída ilegalmente da Amazônia. Segundo Bolsonaro, a PF desenvolveu uma técnica que permite rastrear a origem do produto apreendido. “Creio que, depois dessa manifestação, essa prática diminuirá e muito nessa região.” Na quinta-feira, desistiu da lista e citou apenas a França.

O discurso, diante dos líderes de Rússia, Índia, China e África do Sul, não poderia ser mais patético. Primeiro, por tentar exportar um problema que é seu, fruto de sua política ambiental desastrosa. Segundo, porque é uma confissão constrangedora de que não consegue conter o desmatamento na Amazônia, ao permitir que parte da madeira seja levada para o exterior.

SEM FISCALIZAÇÃO – A questão fica ainda pior quando se sabe que a política ambiental tóxica do ministro Ricardo Salles afrouxou a fiscalização e facilitou a exportação de madeira de origem ilegal. Há até uma ação, movida por ONGs, pedindo o restabelecimento das normas anteriores.

Pelas novas regras, os documentos são emitidos pelas próprias madeireiras. É um convite à fraude. Essa foi apenas mais uma, entre tantas “boiadas” passadas por Salles nestes quase nove meses de pandemia.

O discurso de Bolsonaro na cúpula apenas chamou a atenção para o absurdo. O trabalho de desmonte da legislação e dos órgãos ambientais — hoje totalmente aparelhados pelo bolsonarismo — tem sido conduzido com esmero por Salles, o ministro incendiário escolhido para o Meio Ambiente.

VISÃO DESTRUTIVA – A bem da verdade, Bolsonaro nunca escondeu sua visão destrutiva. Mesmo antes de tomar posse, deixou claro que sua pólvora estava reservada para os órgãos ambientais, não para madeireiros e garimpeiros clandestinos. “Não vou mais admitir o Ibama sair multando a torto e a direito por aí, bem como o ICMBio. Essa festa vai acabar”, disse ele em fins de 2018.

Antes de fazer discursos infantis, Bolsonaro deveria usar as técnicas avançadas da PF para rastrear o desmatamento ilegal na Amazônia e punir os responsáveis. Até porque, pelas estimativas disponíveis, 80% desse material abastecem o mercado interno. Só 20% são exportados, principalmente para Europa e Estados Unidos.

Por que, se a PF sabe quem compra madeira ilegal, não autua quem vende? Porque combater a prática, que devasta a imagem do país no exterior, desagradaria a um nicho eleitoral relevante: grileiros, madeireiros e garimpeiros que destroem a Amazônia. Bolsonaro acha que o inimigo está lá fora. Está aqui mesmo.